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(Por sugestão do Flávio, coloco a disposição o arquivo para download de Morte Alada.  Tradução do Renato Suttana do site www.sitelovecraft.cjb.net.)

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HP Lovecraft – A Morte Alada

Howard Phillips Lovecraft morreu pobre. E não seria exagero dizer que, para um escritor de seu gabarito, ele também morreu no anonimato, obscuro perante o grande público.

Não obstante, a capacidade de Lovecraft como escritor e a qualidade de seus trabalhos eram bastante famosas em seu meio. Prova disso foram as inúmeras revisões e ghost writtings  que o escritor fez para vários parceiros de profissão. Algumas revisões Lovecraft apenas fazia uns retoques aqui e ali, sem alterar notavelmente o trabalho de seus clientes, mas em outros casos, a intervenção de Lovecraft era tão pesada, que ao por os olhos sobre a história, o leitor não teria como dizer que não se tratava de um genuíno escrito Lovecraftiano.

Dois exemplos desses trabalhos estão entre meus contos favoritos do escritor: “Morte Alada” e “Nas Muralhas de Eryx” (este último considera-se uma colaboração, mas a maior parte da prosa crê-se pertencer a Lovecraft).

“Morte Alada” foi um trabalho encomendado pela Americana Hazel Heald. Até hoje, usando a melhor fonte de pesquisa que tenho em mãos, a internet, não consegui achar nada de relevante sobre a pessoa de Heald. Tudo que conheço sobre ela, são as obras revisadas para ela por Lovecraft (um total de cinco).

O conto, dividido em duas partes, se passa em 1932 no continente Africano (mostrando que mesmo sem nunca sair de Providence – com uma breve exceção enquanto fora casado – Lovecraft não se limitava geograficamente levando seus leitores a diversos lugares do globo, vide “A Sombra Fora de Tempo” e “Nas Montanhas da Loucura”, por exemplo), começando, mais especificamente, em um hotel em Bloemfontein, África do Sul.

A princípio somos apresentados a quatro personagens – o propietário do hotel, um policial, um legista e um médico – , que mais estão ali para servirem de elo para os leitores com o diário do Dr. Slauenwite, que se encontra morto no piso do quarto do hotel em um cenário um tanto quanto bizarro – nada incomum para um conto de Lovecraft.

Apesar da história já começar conosco sabendo o destino do personagem principal, o importante aqui é saber, como em muitas histórias não-lineares, como as ações que trouxeram àquele ponto da trama aconteceram.  Após uma breve descrição do local e sua situação, Lovecraft logo nos permeia pelas páginas do diário do Dr. Slauenwite, utilizando um recurso narrativo bastante comum em sua obra, onde a história é totalmente ou quase totalmente narrada por meio de uma espécie de documento, como forma de registrar o fato narrado pelo protagonista, como uma espécie de confissão ou desabafo. Um documento deixado para a posteridade, cujo próprio narrador não espera obter a credibilidade de quem o lê (o romance de terror mais famoso que me vem a mente utilizando este recurso é Drácula). O interessante é que, para efeito narrativo de ficção, essa técnica serve para dar um efeito de veracidade para quem o lê (mesmo tendo completa consciência de que se trata de uma obra de ficção).

No caso de “Morte Alada” esse recurso é particularmente bem-sucedido a começar pelo fato de que o Dr. Slauenwite logo nos confessa um crime em sua abertura, mas ele logo tenta se justificar. Lovecraft aqui nos coloca na mente de um narrador não confiável, mas ele se sai bem em mostrar traços da personalidade do narrador sem serem expositivos, nos dando material para medirmos o caráter de Slauenwite de forma natural.

O primeiro tema, e que serve de fio condutor, do conto é o de vingança. Dr. Slauenwite confessa seu desagrado com seu antigo amigo e colega de profissão, Dr. Henry Moore e seu plano para vingar-se deste. Slauenwite deixa claro seu orgulho em fazer questão que tal plano seja atribuído a sua pessoa, tamanha é a mirabolância engenhosidade  da maquinação que tem em mente, ao mesmo tempo em que ele usa isso de subterfúgio para ressaltar o motivo, como se fosse uma justificativa válida, para sua ação hedionda.

Slauenwite havia desenvolvido uma teoria sobre febre auxiliado, segundo ele, vagamente nos trabalhos do falecido Sir Norman Sloane, encontrados na casa em que residia. Essa teoria lhe trouxe fama instantânea na comunidade médica e iria lhe render até um título de Cavaleiro. No entanto, seus planos vão por água a baixo quando seu amigo e colega, Dr. Moore, antigo correspondente de Sir Sloane, descredita sua teoria, ao afirmar que Sir Sloane já havia antecipado cada detalhe significante contido nela.

Nessa situação, o uso do narrador não confiável é uma ótima ferramenta dramática, pois sendo nossa única fonte de informação, nos leva a considerar com cuidado o relato de Slauenwite e procurar ver a verdade (se há alguma) por trás de suas falácias. Um outro ponto interessante deste recurso no conto é que, considerando o caráter de Slauenwite, nos coloca na pele dos quatro presentes no quarto do hotel, quando os fatos sobrenaturais adentram a história. Afinal, após ler o relato, mesmo encarando aquele bizarro cenário, fica difícil acreditar no que realmente ocorreu.

Slauenwite não tem pudor algum em confessar um crime hediondo, se isto implica em salvar sua “reputação”, ainda mais somado ao fato de ele considera seu plano para eliminar Moore, digno de gênio, o que massageia ainda mais seu ego. Pare ele, sua imagem como assassino seria diluída perante sua firmação como gênio da medicina.

No entanto, seu plano não lhe vem num lampejo de genialidade proveniente do nada. Após seu desgaste com a afirmação de Moore, Slauenwite se transferiu para o interior do Quênia, em um lugar totalmente inóspito no meio do nada, tratando de doentes no entreposto de M’gonga.

É aqui que entre em cena o elemento sobrenatural da história, quando Slauenwite se depara com nativos vítimas de uma misteriosa enfermidade proveniente de um inseto. O Dr. finalmente tem seu lampejo e sua mente vingativa logo preenche o vazio entre os dois pontos. Obviamente, Slauenwite decide usar essa mortal mosca contra seu desafeto.

Apesar de guardar com atenção, em seu relato, a descrição da lenda da mosca-demônio, Slauenwite a princípio não lhe dá muito crédito. A considera apenas pura superstição de uma “sub-raça”.

O racismo é um tema que permeia muito da obra de Lovecraft, e que cria uma má reputação à obra do autor, gerando antipatia por parte do público. Muitos estudiosos defendem que o racismo de Lovecraft era mais um resultado do meio e época em que vivia do que algo inerente a sua pessoa. Consideram, pelo fato de ter casado com uma judia, que seu preconceito era mais de caráter cultural do que étnico.

Independente do que realmente foi, é interessante notar que, conscientemente ou não, Lovecraft invertia essa ideia de ignorância que o branco anglo-saxão tinha com outras culturas/etnias em suas histórias. Afinal, como se nota neste conto em questão, Slauenwite, branco anglo-saxão, acadêmico, era o grande ignorante no fim, ao desprezar a sabedoria de um povo apenas pelo que aparentavam ser. Como se estivesse dizendo que o homem civilizado coloca uma espécie de viseira nos olhos e só enxerga aquilo que lhe é conveniente. Que aquilo que foge sua compreensão é lenda, superstição, coisa de povos ignorantes e sem cultura (afinal cultura é apenas aquela que lhes servem).

A lenda conta que o indivíduo picado pela mosca tem sua alma roubada pelo inseto, permanecendo preso em seu minúsculo corpo.  No entanto, Slauenwite só via, como um médico, os sintomas expressados pelos pacientes. Letargia, temperatura bem baixa, etc. Ele diz desconhecer tal enfermidade e chega a compará-la com a mosca Tsé-Tsé. O interessante aqui é que Lovecraft comete dois erros nessa comparação.

Slauenwite afirma em seu diário que humanos não são infectados pela Tsé-Tsé e que mesmo se fosse o caso, essas moscas se encontram mais ao sul. No entanto, os humanos são sim infectados pelo parasita que é transmitido pela mosca que também é endêmica no Quênia. Não sei ao certo se esses erros foram falta de acesso de Lovecraft à informação ou era algo ainda não determinado à época (o conto é de 1932). Se for por falta de informação, minha suspeita de que Heald tenha tido a inspiração para a história ao tomar conhecimento da mosca, vai por água a baixo.

Mostrando que adere a filosofia de que “os fins justificam os meios” somada a falta de compaixão aos nativos, Slauenwite os usa como cobaia para testar a eficácia das moscas como arma para eliminar Moore. O insano Dr. parte com uma trupe, incluindo o recém-recuperado Mevana, seu primeiro paciente com a enfermidade, atrás de mais espécimes das moscas, para que possa dar inicio a seu escabroso plano.

Aqui, Lovecraft consegue dar um jeito de inserir esse conto, mesmo que brevemente, dentro da Mitologia Cthulhu (a qual, vale ressaltar, só foi cunhada de tal forma, postumamente, afinal, Lovecraft nunca a viu como tal).

Durante a expedição, o grupo se depara com ruínas “Ciclópicas” (HP adorava esse termo, aparentemente), a qual os nativos dizem ter pertencido, em outros tempos, a deuses malígnos como Tsadogwa e Clulu. O último, em especial, não fica claro se foi Lovecraft demonstrando a falta de atenção do Dr. com os nomes (dando um tom mais realista) ou apenas como aqueles nativos se referiam a Cthulhu.

Por fim, o Dr. retorna ao entreposto satisfeito, com cinco espécimes da mosca. É interessante a partir daqui que, mesmo sendo um plano extravagante, a riqueza dos detalhes da forma como ele é conduzido e apresentado a nós, aplica plausibilidade a ele, também somado à natureza covarde do autor do diário.

Slauenwite faz hibridizações e até mesmo pinta (!!) os insetos, tudo para garantir que seu desafeto não reconheça os espécimes como um perigo à sua pessoa. Satisfeito com o potencial letal das moscas após testar em dois nativos (permitindo que um faleça – aqui presenciando pela primeira vez, incrédulo, obviamente, a lenda sobre a mosca-demônio tomar vida), Slauenwite segue para a parte final do plano: fazer com que elas cheguem até seu destino. Mais uma vez o Dr. não economiza na cautela, planejando uma viajem e até mesmo deixando a barba crescer para evitar qualquer referência a sua imagem.

Ao retornar com a primeira parte do plano completa, Slauenwite passa a anotar em seu diário as notícias sobre o progresso de seu plano, sempre mostrando um doentio entusiasmo conforme a saúde de Moore vai se deteriorando após a picada da mosca.

A primeira parte do conto termina com Slauenwite vangloriando-se pelo triunfo de seu plano, embora nem tudo seja flores, pois apesar de todo cuidado que tivera, ele teme que sua rixa com Moore levante suspeitas, e não arriscando, resolve assumir uma identidade falsa e sumir.

Slauenwite reabre seu diário meses depois, agora em um hotel em Joanesburgo. Após gastar mais da metade do conto preparando o terreno, Lovecraft finalmente nos joga numa atmosfera inquietante e aterradora, aqui nesse conto, mais psicológica do que física. E esse ritmo segue até o fim.

O Dr. vinha sofrendo constantemente de pesadelos relacionados ao crime que cometera, devido ao stress que vinha sofrendo em relação ao desenvolvimento das investigações. No entanto, ele comenta sua inquietação sobre uma mosca que invadira seu quarto. Slauenwite logo é tomado por paranoia e logo começa a fazer ligações entre a mosca e o crime que cometera, possivelmente evitando uma inicial comparação com a lenda dos nativos. Ele forma conjecturas, devido ao fato da mosca ser idêntica a suas criações, de como, se for o caso, essa mosca poderia ter vindo do Brooklyn  até a África do Sul!!

Sim, aqui é mais Lovecraft dando, através do Dr., uma certa plausibilidade a esse evento. Realmente, a trinca de absurdos – a distância, a inóspitabilidade da travessia (oceâno, deserto, etc) e  o tempo de vida de uma mosca – pesam terrivelmente contra, se não fosse por um detalhe: não se trata de uma mosca comum.

Isso deveria ser óbvio pra quem lê o conto, e as divagações do Dr. seriam meramente o que se esperar de um sujeito cético. No entanto, me vi surpreendido por notar que essa passagem do conto teve um destaque em seu  Pod Cast no blog hppodcraft. Os autores do podcast (que é muito interessante diga-se de passagem, com leitura de alguns trechos) acharam absurdo esse feito da mosca, mas esqueceram de levar em conta que se tratava de algo sobrenatural e, que no fim, certas regras não se aplicam.

Slauenwite tenta lutar contra o que vê,  pois as ações da mosca vão se tornando cada vez mais angustiantes para o narrador. Ela começa a voar em volta do livro escrito por Moore Diptera do Centro e Extremo Sul da África o que perturba o Dr. profundamente e em seguida, a mosca molha as patas em tinta e começa a fazer marcas  no teto que mais tarde ganhariam sentido. Slauenwite é forçado a aceitar a verdade, quando um funcionário do hotel vê as marcas no teto, fazendo suas esperanças de estar vendo alucinações evaporarem.

A partir daí, o Dr., tomado pela paranoia e sentimento de culpa, começa a sofrer uma vagarosa e aparentemente deliberada tortura causada pelo inseto. Slauenwite começa a dar razão à lenda nativa ao começar a fazer ligações da morte de Moore com a mosca que o mordeu.

O Dr. percebe uma espécie de contagem regressiva feita pela mosca, através das marcas de tintas e batidas contra a janela, e que a própria estaria caçoando dele, ao pousar algumas vezes em seu pescoço, sem o mordê-lo. Tomado pelo terror, Slauenwite decide abandonar o hotel. Ele já não sabe mais no que acreditar.

Quando, a partir da impressão de que a mosca estaria fazendo uma contagem regressiva, Slauenwite percebe que só tem um dia até seu fatídico destino, sua escrita no diário torna-se difícil de entender – dita a nós através de uma nota do autor – externando o grande terror no qual vive.

A mosca então, após sobrevoar o livro escrito por Moore, pousa sobre um relógio, na marca de 12. Slauenwite sabia que Moore havia falecido ao meio-dia. Sem muito tempo em mãos, agora, mesmo não admitindo arrependimento pelo que fez, e considerando a veracidade da lenda nativa, o Dr. decide usar gás Cloro para conseguir apanhar a moscar – uma vez que suas outras tentativas mais convencionais falharam – se protegendo dele com um lenço amarrado ao rosto com amônia.

No entanto, sua última entrada no diário indica que ele foi interropido bruscamente.

É quando voltamos para nossos quatro personagens iniciais, testemunhas do sinistro cenário que era o quarto do hotel. O Dr. fora encontrado morto no chão, com uma marca de mordida de inseto atrás do pescoço. Autopsia revelaria que o Dr. morrera de ataque cardíaco do que como resultado da picada, mesmo tendo encontrado o parasita no organismo do médico. A mosca fora encontrada boiando dentro do vidro de amônia. O cenário era um verdadeiro quebra-cabeça. Principalmente quando notam no teto marcas que acabam por forma uma sentença, de uma forma que, após averiguação, não poderia ter sido escrita por mãos humanas.

Não é a obra-prima de Lovecraft, na verdade, nem mesmo leva seu nome. Mas é um conto bastante divertido e inconvencional. É um conto fácil de se ler, e que eu recomendaria para quem nunca leu o autor, como iniciação, junto com outros como “Chamado de Cthulhu”, “A Cor Que Veio do Espaço” e outro ghost writing já citado aqui “Nas Muralhas de Eryx”. Eu particularmente achei interessante, neste conto, que mesmo provavelmente sem intenção, Lovecraft aborda muito de seu Cosmicismo, principalmente quando coloca humanos no lugar de insetos, ilustrando de certa forma, o nosso real lugar no Universo.

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