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Ridley Scott está de volta à Ficção Científica, desta vez, retornando em um prelúdio do filme que o consagrou, “Alien, o Oitavo Passageiro”.

Scott não dirige um filme do gênero há 30 anos, desde que nos entregou sua versão da obra de Philip K. Dick, “Do Androids Dream of Electric Sheep?”, mais conhecida como “Blade Runner”.

Rumores são de que Scott estaria interessado também em revisitar essa sua outra obra seminal, no entanto os rumos da trama são ainda mais vagos. Já li que Harrison Ford estaria interessado em voltar ao papel de Rick Deckard; já li também que estariam falando ou em um reboot ou um prelúdio (ambos inviabilizando o retorno de Ford, a não ser, claro, que queiram um Deckard sessentão).

Talvez anos atrás, antes de eu ler a obra de Dick, eu iria achar a ideia irada. Ver Ford voltando ao personagem, ao invés de outro ator, continuando a história de alguma forma. Ou até mesmo um prelúdio contando mais daquele universo do filme.

Mas eu li o romance de Dick.

Bem, antes de mais nada, quero deixar claro que esse post não é sobre livro vs. filme. “Blade Runner” é um filme excepcional, um dos meus favoritos de todos os tempos em qualquer gênero. O filme na verdade é o grande responsável por trazer a atenção merecida ao trabalho de K. Dick, que antes era reservado a um público menor. Fez o autor se tornar o Stephen King da Ficção Científica, tamanha foram as quantidades de adaptações de suas obras que vieram a seguir.

No entanto, eu acredito que deveriam deixar o filme original sossegado e, aproveitando esses rumores, voltarem atenção ao livro fonte. Como disse anteriormente, o filme tem seu próprio universo e elementos dramáticos, e não seria exagero considerá-lo uma história completamente diferente.

Dessa vez, poderia ser interessante abordar todos aqueles elementos narrados por Dick que foram abandonados ou pouco explorados na versão cinematográfica. Um deles, provavelmente o mais importante, é a religião e as pessoas em relação a ela. Esse tema, da forma como é abordado no livro, principalmente agora, tomou um ar muito mais interessante do que na época em que foi publicado. Assim como os animais, que embora estejam presentes no filme, funcionam mais como elementos de apoio da trama do que como peças centrais.

O próprio cenário é violentamente alterado. Não só o local onde se passa a história (de São Francisco para Los Angeles), mas também a situação em que se encontra. Enquanto no livro a Terra vive as consequências de uma guerra nuclear, no filme, a Terra sofre, aparentemente, do resultado de drásticas alterações ambientais. Este último, pode-se muito bem ser mantido, afinal, um desastre ambiental, hoje, nos parece mais uma realidade do que um holocausto nuclear. Também fiquei curioso, por estar lendo no momento “O Homem do Castelo Alto”, também de Dick, que aparentemente o filme sugou parte do visual descrito por Dick no livro, fazendo uma espécie de “mash-up” das obras do autor.

Vários personagens foram, ou suprimidos ou alterados em relação à obra original. Deckard é solteiro no filme e Rachel funciona como vítima. Sebastian, o empregado da Corporação Tyrell, faz a função de Isidore no livro. No entanto, nas sequências literárias do filme (que não têm nenhuma ligação com o livro original), o personagem de Isidore aparece.

Um dos pontos mais discutidos a respeito do filme é sobre se Deckard é um replicante ou não. Só que essa é uma discussão já sem sentido, uma vez que Scott já veio a público e abriu o bocão dizendo que Deckard é um replicante. Que brochada, Ridley! Eu acho que, não só um filme, mas qualquer obra, deve falar por si só. Os irmãos Wachowsky aprenderam isso na marra, e parece que, pra sorte deles, muita gente não percebeu que Matrix foi concebido como mero filme de pancadaria, e que toda filosofia vista por trás de tanto porradeiro por catedráticos de botecos, foi mero acidente.

Obviamente a inspiração para a questão replicante de Deckard veio do livro, situação que é abordada por uma boa quantidade de páginas. Na verdade, essa passagem do livro cria uma complexidade maior ainda para os replicantes (chamados de andróides, ou andys). No Final Cut do filme (“Blade Runner” tem pelo menos sete versões, mas só três delas são realmente relevantes), a situação é apresentada com maestria por Scott, e mesmo com o diretor tendo estragado a graça da coisa, ainda assim é algo a ser deixado do jeito que está.

No entanto, esse tema pode ser explorado novamente, como na forma em que é apresentada no livro, e que vai além de Deckard, sendo usada também para questionar a humanidade do personagem e suas ações.

Mas para a mim, o tcham da trama de “Blade Runner” está em seus “vilões”. Os replicantes foram realmente uma grande evolução do livro, onde ao invés de meramente estarem fugindo da escravidão, eles estão uma busca de algo que é muito mais identificável e precioso a nós, seres humanos: a vida. E essa abordagem dos replicantes que leva o filme a um dos climaxes mais fodásticos do Cinema, onde Roy Batty (Rutger Hauer – que mesmo gostando do Ian Mckellen, DEVERIA TER INTERPRETADO O MAGNETO NOS FILMES DOS X-MEN!!!) entrega a famosa pala “Lágrimas na Chuva”. É um final tapa-na-cara, que mesmo não sendo o que era de se esperar, ninguém reclama.

Eu não sou xiita com muitos fãs que viram ao avesso quando escutam notícias do tipo, mas com tanto material a ser explorado, “Blade Runner” deveria ser deixado intacto (se  isso fizer sentido, se é que me entendem), e que a nova produção use e abuse da obra original, no fim entregando algo novo na medida do possível a um público que não só curte o filme de Scott, mas também a obra do profético* Philip K. Dick.

*Entenda o porquê do “profético” em um futuro post.

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