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ImageComo alguns autores tem as vidas pessoais ligadas à suas obras, alguns filmes, por mais estranhos que possam parecer, encontram correspondentes na vida real. É o caso do filme Desconhecido, com Liam Neeson interpretando o Dr. Martin Harris e January Jones como Elizabeth Harris. O Dr Harris e sua esposa chegam a Berlim para um conferencia de Biotecnologia e se registram no hotel Adlon. Harris então percebe que esqueceu sua maleta no aeroporto e volta para busca-la, no percurso sofre uma acidente de carro e fica em coma por quatro dias, ao acordar retorna ao hotel e fica surpreso por ninguém reconhece-lo. Os funcionários afirmam não ter seu nome registrado no hotel e para piorar, sua esposa o trata como um completo  desconhecido, tudo sobre sua vida parece ter sido modificado. Embora confuso, e apesar de todo o contexto, ele mantem a certeza de que é o Dr. Martin Harris. O telespectador logo conjectura: isso é impossível, ele deve ter deixado amigos, conhecidos, colegas, a  identidade de alguém deixa inúmeros rastros. Será mesmo?

 Em 1889, ano da grande exposição, um fato semelhante aconteceu em Paris. No mês de maio, chegaram a capital uma inglesa e sua filha, provenientes de Marselha, onde haviam desembarcado, vindas da Índia. Tinham reservado dois quartos individuais num dos mais famosos hotéis de Paris. Assinaram os seus nomes no livro de registro e foram conduzidas aos seus quartos. A mãe ficou instalada no quarto 342, um aposento luxuoso, com pesados cortinado de veludo cor de ameixa, papel de parede coberto de rosas, um sofá de espaldar alto, mesa oval de pau cetim e um relógio de bronze dourado. Quase imediatamente, porem , esta senhora sentiu-se  doente e ficou de cama. O médico do hotel, que foi chamado, examinou-a, fez algumas perguntas a filha e teve depois uma conversa breve e agitada com o gerente do hotel, à um canto do quarto. Embora não falasse francês, a jovem conseguiu compreender as instruções que o médico, lentamente, lhe forneceu. A sua mãe encontrava-se gravemente enferma e necessitava de um medicamento determinado que ele só tinha em seu consultório, no  outro extremo de Paris. Como ele próprio não podia abandonar a doente, pediu-lhe que fosse na sua carruagem. A jovem partiu, a uma velocidade exasperadamente vagarosa . depois de um espera angustiante no consultório e de uma viagem de regresso igualmente lenta, voltou com o remédio. Tinham decorrido 4 horas. Saltando da carruagem, precipitou-se para a recepção do hotel. —Como esta a minha mãe?—. Perguntou ao gerente. Este olhou-a sem expressão. —A quem se refere, mademoiselle?— Perguntou. Apanhada de surpresa ela gaguejou uma explicação da sua demora. —Mas mademoiselle, não sei nada da sua mãe. A mademoiselle chegou sozinha ao hotel.

Perturbada, a jovem protestou:— mas nós registramo-nos aqui ha menos de seis horas. Veja o livro de registros—. O gerente apresentou o livro e percorreu a página com o dedo. A meio da página encontrava-se a assinatura da jovem, mas , imediatamente acima, onde a mãe assinara, estava o nome de um estranho. —Ambas assinamos— insistiu desesperadamente a jovem— e a minha mãe recebeu o quarto 342, onde está neste momento. Por favor, leve-me imediatamente até junto dela.

O gerente garanti-lhe que o quarto estava ocupado por um família francesa, mas, mesmo assim, subiu com ela. O quarto 342 continha apenas os objetos pessoais dos seus novos ocupantes. Não havia cortinados de cor de ameixa, nem papel de parede com rosas, nem sofá de espaldar alto, nem relógio de bronze dourado.

De novo na recepção , a jovem encontrou o medico do hotel e procurou averiguar o que sucedera à mãe, este negou tê-la alguma vez encontrado e jurou que nunca examinara a mãe.

A jovem expos o sucedido ao embaixador britânico, que não  acreditou nela, tão pouco nela  acreditaram a policia ou os jornais. Apos longa , extenuante e fracassada busca, finalmente , regressou a Inglaterra, onde deu entrada em um asilo.

k-pax e Ansel Bourn

ImageÉ impossível evitar spoiler ao fazer uma analogia entre k-pax( filme de 2001 que adapta o livro de ficção cientifica de Gene Brewer) e a historia de Bourne. O ponto de contato entre eles acabaria por revelar a trama, e como não quero ser estraga prazeres, recomendo que vejam o filme estralado por kevin Spacey e Jeff Bridgs( pode acreditar, não será nenhum sacrifício, k-pax é um excelente filme) e tirem suas próprias conclusões. Então vamos a historia real que, provavelmente, inspirou o personagem central de K-pax:

Um homem de nome A. J. Brown alugou uma loja na East Main street, em Norristown, Pensilvania, nos primeiros dias do mês de fevereiro de 1887. Vivia na parte traseira da casa e matinha o seu negocio na da frente, onde vendia diversos artigos de confeitaria, de papelaria e outros objetos economicamente acessíveis.

Um domingo, dia 13 de março, depois de se dirigir a igreja metodista local, Brown retirou-se e foi deitar-se , como habitualmente.

As cinco da madrugada do dia seguinte foi acordado por um estampido que pensou ser um tiro disparado por uma pistola. Abriu os olhos e não reconheceu o local em que se encontrava. Sentia-se fraco, como se estivesse embriagado, e não reconhecia nada do que via pela janela do recinto . Durante cerca de duas horas, dominado por uma angustia crescente, permaneceu deitado na cama, tentando recordar-se como é que ele, Ansel Bourne, se encontrava naquele estranho quarto.

Finalmente, abriu a porta e viu o senhorio. Sr Earle.

—Onde estou?— perguntou ao seu atônito senhorio. —Sente-se bem ser Brown?— foi a resposta.

—Mas eu não me chamo Brown—  Exclamou  Bourne.

O senhorio disse-lhe em que cidade se encontrava e informou-o de que se estava no dia 14.

—Então o tempo aqui anda para trás— . Retrucou Bourne.— Quando sai de casa era dia 17.

—17 de que?— Perguntou Earle.

—De janeiro.

—Estamos a 14 de março Sr. Brown.

Earle chamou um medico. Bourne insistia em que a ultima imagem que retivera eram as carroças na Brad Street, em Providence, Rhode Island, depois de ter saído da loja de um sobrinho a dois meses e 460 km de distancia.

O sobrinho, contatado, veio busca-lo. A família, que o tinha dado como desaparecido, interrogou-o sobre a sua estranha experiência, mas ele de nada se lembrava. Não conseguia imaginar por que motivo ele, carpinteiro, pregador e agricultor, montaria um negocio sobre o qual nada sabia e que não lhe interessava .

Três anos depois, o Prof. William James, de Harvard, ouviu falar do caso e examinou Bourne. Sob hipnose , este declarou que o seu nome era Albert John Brown e contou a sua viagem a Pensilvania, no dia dezessete de janeiro  de  1887. Recorda-se de ter alugado um apequena loja algumas semanas depois , mas mostrava-se confuso e lembrava-se pouco claramente da sua vida anteriormente à época em que se estabelecera na Pensilvania.

Sabia que sofrera muito durante toda a vida e que sua mulher morrera em 1881, como de fato acontecera a mulher de Bourne.

O professor James demonstrou que as personalidades de Bourne e Brown eram absolutamente distintas e não apresentavam analogias: cada um tinha os seus próprios gestos, expressões faciais e caligrafia.

Depois da morte da mulher, Ocorrida quando ele tinha cerca de 55 anos, Bourne abandonou o seu oficio de carpinteiro, tornou-se agricultor e , em 1887, economizara o suficiente para comprar alguns terrenos. Levantou 551 dólares do banco e foi visitar o seu sobrinho em Providence . Ignora-se como  se transformou em A J Brown. Mas foi com os 551 dólares que montou o negocio de que extraia os lucros que lhe permitiram viver em Norristown. Brown sob hipnose garantiu ser pessoa distinta de Bourn embora o conhecesse. Com a continuação da hipnose a personalidade de A. J Brown foi-se desvanecendo para nunca mais reaparecer.

Os sonhos de Dante Alighieri.

“Somos  feitos da mesma substancia que os sonhos…” Talvez seja forçar muito a barra usar Shakespeare para introduzir Dante Alighieri, mas o trecho do monologo de Prospero* ilustra muito bem a historia de como a parte final da divina comedia veio a público. Quando em 1321, Dante Alighieri morreu, não foi possível encontrar as partes derradeiras do manuscrito da sua obra prima. Durante meses, os seus filhos, Jacopo e Piero, revistaram a casa e todos os papeis do pai. Tinham desistido da busca quando jacopo sonhou que vira o seu pai vestido de branco , banhado por uma luz espectral. Perguntou a visão se o poema fora completado. Dante acenou afirmativamente e mostrou a Jacopo um local secreto no seu antigo quarto. Tendo como testemunha um advogado amigo de Dante, Jacopo dirigiu-se ao local indicado no sonho. Por detrás de um pequeno cortinado fixado na parede encontraram um postigo. No interior do esconderijo havia alguns papeis cobertos de bolor. Retiraram-nos cuidadosamente, limparam-nos com uma escova e conseguiram ler as palavras de Dante. Na divina comedia , Dante , autor e protagonista da obra, viaja para mundos etéreos durante seus  sonhos. Foi  usando esse mesmo expediente, intercambio entre realidade e sonho, que Alighieri resgatou a obra prima pela qual ficaria conhecido . … “E entre um sono e outro, decorre nossa curta existência”.

*Prospero é um dos personagens centrais da ultima peça de Shakespeare, A Tempestade,  é ele quem faz o discurso final sobre a essencia e  materia da qual  somos feitos: os sonhos.

Obs: Nenhum dos dois filmes foi oficialmente inspirado nas historias a eles vinculadas. Ambas as historias foram extraídas dos livros Seleções Readers Digest, —passos no desconhecido e mistérios intrigantes e por solucionar— Portugal, edição 1977, ;Compedio do estranho e do bizarro, edição de 1949.

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