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Quando o filme dos X-Men estreou nos idos de 2000, muita gente não ficou nada satisfeita com a escalação de um australiano boa-pinta de 1,90m de altura para o papel do diminuto mutante canadense de cara amarrada. O curioso é que hoje em dia, ninguém consegue mais separar Hugh Jackman da figura do ranzinza mutante da Marvel Comics. “Ele é perfeito pro papel”, muitos devem dizer. Eu até me coloco nesse meio. Jackman fez um ótimo trabalho encarnando Logan; é uma das descaracterizações mais bem sucedidas em uma adaptação seja ela de que mídia for.

Mas não tem algo meio estranho nisso tudo?

Se voltarmos lá nos não tão longíncuos anos 70 e sondarmos a origem do Wolverine e analisarmos os primórdios do baixinho cabeludo, perceberemos que ele foi concebido para uma finalidade e acabou tomando um rumo que aparentemente Len Wein e a Marvel não esperavam: o sucesso.

Se não sacaram o que estou querendo dizer ainda, façamos o seguinte: Peguemos dois grandes personagens de cada uma das duas maiores editoras de quadrinhos dos EUA: Batman e Super-Homem da DC e Capitão América e Homem-Aranha da Marvel. O que esses quatros personagens distintos tem em comum?
Super poderes? Não o Batman.
É um alienígena? Só o Kal-El.
Foi um militar camarada? Apenas o Bandeiroso.
Foi casado? Só Peter Parker e Clark Kent cometeram tamanha façanha.
Então o que?! Tá na cara, oras. Todos possuem estaturas acima da média, são caras boas-pintas e possuem um bom porte físico (só o Mark Bagley que deu uma anorexada no Peter). Ok, Peter Parker tentou ser diferente sendo nerd e usando óculos, mas com grandes poderes vem grandes mudanças físicas, Steve Rogers que o diga, não é?

O fato aqui é que todos esses personagens foram concebidos como heróis, e heróis possuem um certo estereótipo físico que até hoje persiste.
Wolverine surgiu como um vilão em uma história do Incrível Hulk. Então se o cara é baixinho, mal encarado, cheio de cabelo pelo corpo e ainda por cima nem americano era, logo vem à mente: era pra ser apenas um vilão qualquer, que como todos, sempre tendem a ser o oposto da aparência física de um herói.
Acontece que os poderes do cara eram bacanas demais para serem ignorados.

Dotado de três garras de adamantium em cada punho (que no início faziam parte de sua luva), habilidades de felino (agilidade e olfato apurado) aliado a um fator de cura mutante, Wolverine se tornou um dos personagens de ficção mais apelões de todos os tempos (nem o Conan foi páreo pra ele!). E como aparentemente Len Wein não tava ligando muito pro sujeito no início, nem uma origem bolou pro Wolverine, o que deu pano pra manga pra muitos artistas talentosos trabalharem o personagem mais tarde – e outros menos dotados bagunçarem com esse trabalho depois.

Pensando assim, pra mim foi mais do que deliberado que, quando o projeto do filme dos X-Men ganhou sinal verde, os envolvidos logo se trataram de consertar essa “má concepção” do personagem. Não acredito que a escalação de Jackman tenha sido resultado de uma frustrada busca por algum ator baixinho cheio de pelos sobre o corpo. Dougray Scott (Missão: Impossível 2) era, por exemplo, uma outra opção. Eles simplesmente queriam fazer o personagem como ele deveria ter sido criado: alto, atraente e menos cabeludo. Tanto que a única característica mantida no personagem foi seu pentiado esculachado. Se tirassem isso, ele estaria irreconhecível (e ainda o fizeram meio dechavado). Sem esse último elemento, ele teria que andar com as garras projetadas o tempo inteiro, provavelmente com um medalhão rapper escrito “Logan” pendurado no pescoço. Coincidência ou não, o cabelo de Logan é o único atributo físico que vem sendo mudado no decorrer dos anos nos quadrinhos e outras mídias como desenhos animados.

Um ponto que chama bastante atenção pra essa possibilidade do Wolverine ter sido um feliz equívoco, é o fato de, com os anos, Logan ter passado a ser um dos maiores pegadores de mulheres dos gibis. Não estou sendo preconceituoso. Veja bem, uma ou outra até que vai, mas pesquise sobre isso e verá o que quero dizer… Acho que isso é mais impossível que os próprios poderes do personagem. Faça a você, mulher que lê esse artigo, essa pergunta: você levaria o Wolverine pra cama? Você estaria literalmente levando um carcaju em seus braços! Como os autores não podiam mudar as características físicas do personagem (com exceção do cabelo, como já mencionei anteriormente, mas que ainda assim, só viria a acontecer mais tarde), eles simplesmente ignoraram isso, e fizeram várias musas do universo mutante caírem cegamente (só pode ter sido) pelo felpudo. Imaginar isso com um Wolverine com as especificações do Hugh Jackman é até aceitável, mesmo com o cabelo penteado no ventilador.

O único detalhe acidental que realmente é um fato, fora o design da máscara do Wolverine que o saudoso Gil Kane concebeu com “orelhas” maiores, que caiu no gosto de Dave Cockrum (que inclusive bolou o penteado super fashion do nosso herói). Cockrum estava revitalizando os X-Men com Chris Claremont na época, em que outros personagens foram introduzidos à equipe como Colosso e Tempestade, entre outros. Aliás, a dupla de criadores não era muito chegada no baixinho canadense e estava pensando em chutá-lo da equipe. É, Wolvi passou por poucas e boas, e encare como um ato do destino ou não, Wolverine só não dançou por causa de John Byrne, que também canadense, não queria ver um compatriota ser chutado desse jeito. O resto é história.

Mas o que vale é que Wolverine é um exemplo. Acidental ou não, sair dos estereótipos e procurar criar personagens que não saiam da mesma forma é um caminho válido para um gênero dos quadrinhos que tem sido vítima de sua constatante repetição. Não que protagonistas semi-carecas, de nariz inchado e fora de forma seriam a salvação dos quadrinhos da crise, mas com certeza os leitores reconheceriam tamanha bravura dos autores e editoras ao enfrentarem o receio da mudança. Os quadrinhos de super-heróis chegaram a um ponto de estagnação e para sair dessa inércia é preciso evoluir, e não se pode evoluir sem mudanças.

Se Freud não explica, os X-Men explicam.

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