Tags

, , ,

1945. Após cerca de 8 anos de guerra e um déficit de milhões de vidas entre militares e civis, a ameaça nazista havia chegado ao fim. Ao menos é o que a História nos diz. Mas o que aconteceria se Independence Day fosse, na verdade, um plano arquitetado por nazistas remanescentes da Segunda Grande Guerra que se refugiaram na lua?

Parece enredo de filme B de ficção científica, não? É, mas Iron Sky não é tão B assim. À parte da história sem-pé-nem-cabeça, a produção do filme é pra lá de competente (inclua-se aí os efeitos especiais) e faz uma grande homenagens aos filmes de invasão alienígena culminando com o ponto máximo da tiração de sarro dos nazistas (até mais que Surf Nazis Must Die, afinal aqui se trata de verdadeiros nazistas).

É o tipo de situação em que te faz pensar que, tratando-se da organização responsável pelo maior genocídio da História, em uns 20 ou 30 anos, teremos filmes fazendo piadas escrachadas do 11 de Setembro e seus perpetradores (isso já meio que começou, como as piadas do 11-9 em Se Beber Não Case, Familly Guy e Postal – um filme até bacana de Uwe Boll). De fato, nada dura pra sempre. As feridas daquele evento ainda estão se cicatrizando, para alguns mais devagar, para outros mais rápido (como Bruce Willis que, logo após os atentados, disse que nunca mais iria fazer um filme do tipo, como uma continuação de Duro de Matar… Ok…).

 

Iron Sky já prometia ser uma comédia escrachada desde seu primeiro teaser trailer (onde, ao final, a águia da insignia nazista faz caquinha na suástica), como se tal premissa não fosse suficiente para ter essa impressão. E cumpre, o que é bom, afinal se o filme se levasse a sério, iria ter que penar muito pra agradar – imaginem a história ligando o caso Roswell com os nazistas lunáticos (afinal, o que mais eles são?) e a corrida espacial como resultado disso… A ideia também não é original, já sendo abordada no livro de 1947, Rocket Ship Galileo escrito por Robert A. Heinlein.

Na trama dirigida pelo filandês Timo Vuorensola, temos os EUA, num futuro não muito distante (2018… era mais distante quando começaram a produção em 2006), sendo governado por uma presidente que é uma paródia de Sarah Palin, numa forma de governo que retrata a filosofia republicana sem sutilezas ao mesmo tempo em que esta tenta se adequar ao politicamente correto dos tempos modernos, mesmo que seja como um meio para suas próprias finalidades (assim como é com tudo que é politicamente correto), como serem os primeiros a mandarem um homem negro à lua.

 

Cheio de referências cinematográficas, das óbvias (Grande Ditador), passando por não tão óbvias (Star Trek) até às sutis (THX-1138), tem seu destaque, para mim, na referente à A Queda: As Últimas Horas de Hitler, onde tive a impressão de que foi feito no embalo daquela onda da brincadeiras com as legendas, que se via aos montes no youtube, na cena em que Hitler abre o verbo para seus comandados.

Apesar do nonsense, não é aquele tipo de comédia que te faz gargalhar até doer a barriga e dar cãimbra no maxilar, mas as piadas são bastante inteligentes, como a invenção do USB (no embalo de uma cutucada na geração viciada em tecnologia) e a tirada com kamikazes na batalha espacial no final. Outra cena bastante bacana é a com os líderes mundiais na ONU se “entendendo” embalados ao som de uma bacana versão do hino nacional americano, pela banda eslovena Laibach.

Algumas pessoas vão tentar pegar “furos” de roteiro aqui e ali, o que é uma verdadeira perda de tempo, afinal, qual o sentido em achar lógica em um filme onde a Terra é invadida por nazistas do espaço?! Ainda assim, poderia ser melhor? É claro, mas ele fica naquele ponto em que, se mexer, estraga. Na verdade, o uso da ideologia nazista e dos elementos de sua forma de governo, em fusão com a forma de governo da republicana que governa os EUA na película, cria uma infinidades de pensamentos na cabeça, como o uso da máquina de propaganda nazista para benefício nas eleições e a busca por uma guerra como um meio para a reeleição. Este último pode parecer piada óbvia, mas não ao meu entender. Não se vê por aí muitos filmes ou sketches de programas de humor abordando tal assunto da mesma forma.

 

O único rosto realmente conhecido no filme é o de Udo Kier, da mesma escola de vilões do recém-falecido David Lynch, e a qual Mark Strong irá se graduar em breve se continuar no ritmo em que está. O resto do elenco não compromete, pois a impressão é que aparentemente todo mundo ali está se divertindo de montão. Christopher Kirby, o Washington (se fosse Lincoln, seria forçação de barra?) é um ator bastante carismático e tem uma boa presença cômica. As mulheres, são um deleite à parte, com Stephanie Paul encarnando a tara política de muito marmanjo, Julia Dietze usufruindo do fetishe de mulheres em trajes nazistas e Peta Sergeant, que tem um ar de Catherine Zeta-Jones. Não me entenda mal e pense que as mulheres são meros objetos de decoração de cena. São elas quem movem a trama, mais do que os homens.

Infelizmente, dúvido muito que esse filme seja lançado em grande circuito nos Estados Unidos (se não for parar direto em DVD), afinal o quadro pintado do governo do país parece que foi feito pelo Bragolin. Quanto ao Brasil, ainda há chance de chegar aos cinemas. Só depende do interesse dos cinéfilos e Iron Sky, seja como comédia em si ou apenas uma crítica socio-política embrulhada em enredo de sci-fi cômico, é um filme que vale ser visto na tela grande.

 

Se você gostou desse filme veja Dead Snow (2009), leia Nave Galileu (Rocket Ship Galileo) de Robert A. Heinlein e escute Laibach albúm Volk.

Anúncios