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Antes tarde do que nunca. Embora RoboCop – O Policial do Futuro tenha completado 25 anos no dia 17 de Julho, nunca é tarde para celebrar um clássico da ficção científica no Cinema. Lançado em 1987, dirigido pelo holandês Paul Verhoeven, debutando em Hollywood, RoboCop nos apresenta a história de Alex Murphy, um policial da violenta Detroit de um futuro próximo (talvez até passado, hoje), sua traumática e violenta execução e subsequente “ressureição” como o metálico paladino a serviço da lei.

Hoje o filme é resguardado pela sua primazia técnica, mas acredite ou não, RoboCop foi taxado como filme B durante sua produção. Talvez para nós que falamos português, o nome RoboCop soe bem legal, mas para os americanos o nome parecia bastante bobo e infantil e fez muita gente vê-lo com olhares preconceituosos (o próprio Verhoeven se inclui aqui). No entanto, é curioso (e bastante gratificante para nós) que o filme ainda assim recebeu uma produção impecável e detalhista, contando com nomes do calibre de Phill Tippet e Rob Bottin nos efeitos especiais e maquiagem respectivamente.

Os Bastidores

A hoje clássica armadura do policial do futuro, levou cerca de oito meses para ficar pronta (parte de seu visual foi inspirado de mangas e animes da época), passando por vários reajustes no processo. Atores como Arnold Schwarzenneger, Hutger Hauer e Michael Ironside foram cotados para o papel de Alex Murphy, mas eles, devido ao porte físico, iriam fazer o robô ficar muito grande no fim. Assim, sobrou para Peter Weller, maratonista nas horas vagas, encarnar o personagem. Weller, de porte bem menor que os atores supra-citados, ficou perfeito para o papel. Bottin então fez vários moldes de barro baseado no físico de Weller, construindo a armadura sobre eles.

Nesse meio tempo, Weller foi para o Oriente para um treinamento com Pai-Mei para poder compor o robô-tira (viu como soa bobo?). Ok, não foi Pai-Mei, nem no Oriente, mas Weller passou sete (!!) meses trabalhando ao lado do coreógrafo Moni Yakin para compor os movimentos de robô do personagem.

Segundo Weller, ele e Yakin deselvolveram um movimento para o robô que se assemelharia ao de um lagarto ou cobra (espero que não tenha sido nada similar ao de Jar Jar Binks). Bem, se fosse, pra nossa sorte, e desespero de Weller e Yakin, quando a armadura finalmente chegou, já durante as filmagens, o peso total dela era tão incômodo, que praticamente impossibilitava Weller de fazer seja lá o que era que tinha bolado pro movimento. Desnecessário dizer que o ânimo do ator foi lá na sola do pé. Verhoeven, ao notar que isso seria um problema, paralisou as gravações por dois dias, para que Weller e Yakin pudessem resolver a questão.

E veja como são as coisas. O cara levou 7 meses, pagando mico em parques, rebolando, imitando uma cobra, para em apenas dois dias bolar o movimento que é hoje marca registrada do personagem. Para Yakin, o robô perdera sua leveza, sua suavidade de lagarto, para se tornar um monstro, e Yakin, super zen, disse a Weller para não confrontar o monstro, mas se tornar o monstro. O resto do movimento foi sendo desenvolvido aos poucos, e Yakin, ainda presente no início das filmagens, ficava como técnico, dando dicas a Weller do que fazer tipo: “Quando for virar o corpo, vira a cabeça e depois o corpo, ou vire o corpo e depois a cabeça”.

Mas se tu pensa que isso era o fim dos problemas de Weller, coitado… O calvário de Peter Weller já começava na hora de por a armadura, que demandava uma boa quantidade de tempo. Entre gravações, Weller tinha que ficar num local especial, de boa ventilação, mais umas mangueiras levando ventilação para dentro da vestimenta. Segundo Kurtwood Smith, o Clarence Boddicker (me amarro nesse nome), quando ele não se sentia entusiasmado durante as gravações devido ao ritmo puxado delas, era só olhar pra Weller em sua cadeirinha, cheio de tubos enfiados na vestimenta, que ele se sentia melhor. Ainda de acordo com Smith, Weller chegava a perder cerca de 4 quilos por dia, por conta da desidratação (deve ter um exagerozinho aí, mas tá valendo…). Nas cenas em que RoboCop não usa o capacete, Weller tinha que chegar seis horas antes que todo mundo, para que a maquiagem ficasse pronta na hora certa. Depois gravar em ritmo alucinado, para tirar o máximo de proveito da maquiagem que durava cerca de 3 horas.

Segundo Jon Davidson, o produtor, o rosto de Murphy sob o capacete do RoboCop, não era a cabeça em si do policial, mas sua face transplantada (à lá A Outra Face com Cage e Travolta), pensada como uma forma de evitar que o robô, ao se ver em alguma superfície refletiva, não pirasse o cabeção, pois teria uma referência de sua humanidade. O engraçado é que isso ao mesmo tempo deixa pistas da vida passada do robô, afinal a cicatriz do tiro na cabeça que Murphy leva é mantida (e eu acho isso bacana). Outro detalhe da armadura era que ela não era naturalmente relusente e, para criar tal efeito, a equipe de efeitos visuais passava cera constantemente em sua superfície. Já a famosa lâmina que salta do punho do RoboCop é bastante peculiar. Toda vez que aparecia em cena, ela não era empunhada por Peter Weller, mas por um “dublê”. A mão era à parte (como a perna que guardava a pistola) e o “dublê” a controlava de acordo com a cena. A real mão, ou melhor, luva, era de borracha (assim como a base escura do uniforme, no qual o resto das peças eram penduradas – literalmente) e protagonizou um dos dias de filmagens da produção. Um simples take como o de a mão de RoboCop pegando as chaves do carro no ar, levou um dia inteiro de gravação. Toda vez que jogavam a chave ela batia na luva (que devia ser pior que as de goleiro),  e quicava, caindo no chão. A cena foi repetida a exaustão e, graças ao espirito brasileiro de Verhoeven, foi finalmente gravada devidamente e inserida no filme.

RoboCop já saiu várias vezes da delegacia sem as calças. Todas as cenas gravadas dentro do carro tiveram que ser feitas sem o ator estar usando as partes baixas do traje, pois com o traje completo ele não caberia. Assim como na cena em que RoboCop entra em uma boate em busca de Leon Nash, Weller só usa a parte de baixo no take em que desce as escadas. Mesmo assim a dificuldade ainda estava presente, afinal, como bom robô que é, RoboCop não olha para os degraus enquanto desce.

Kurtwood Smith (o “Red” de That ’70s Show) quase ficou com o papel de Dick Jones. Verhoeven tinha como melhor exemplo de representação de um vilão na factual figura do alto oficial nazista Heinrich Himmler, que usava pequenos óculos circulares, detalhe que foi incorporado para o personagem Clarence. Smith também via seu personagem mais como um revolucionário do que um gangster, e ele acabou criando a indumentária do personagem baseada nessa ideia. Miguel Ferrer que inicialmente iria interpretar um dos membros da gangue de Clarence, pediu para seu agente para conseguir o papel de Bob Morton. O personagem inicialmente iria começar como uma espécie de nerd bitolado, mudando seu visual no decorrer da projeção, como resultado da confiança adquirida com o sucesso do Projeto RoboCop, mas a ideia foi logo abandonada. Ferrer desenvolveu o confronto na cena do banheiro de seu personagem com Jones, interpretado por Ronny Cox, a partir de uma sugestão deste. O confronto era previsto no roteiro como instantaneamente explosivo, mas os atores optaram por uma tensão crescente, como nas palavras de Cox, com um ar meio sexual. Ronny Cox por sinal afirma como razão principal de aceitar o papel (estava com um pé atrás a princípio) o fato do desafio de interpretar um vilão, pois até então só vinha interpretando caras legais em sua carreira (putz, eu fiquei mó triste quando o chefe Bogomil quase morre em Um Tira da Pesada II). O ator deve ter gostado tanto da experiência que a repetiria, mais uma vez com Verhoeven, anos mais tarde em O Vingador do Futuro, com um personagem um tanto quanto similar. Por fim, uma curiosidade a respeito do visual da personagem de Nancy Allen, Lewis, é que o fato de sua personagem ter cabelo curto e ser meio masculinizada foi com o propósito de tirar qualquer ideia da cabeça do espectador quanto a um possível interesse romântico com Murphy/RoboCop.

Na época em que Matte Paint ainda era feito com tinta e pincéis, Rocco Gioffre era um dos feras do mercado (ainda é, mas teve que se render a era digital, com um certo ressentimento) e fez um trabalho magnifico para o filme. O artista, que ao contrário da maioria dos Matte Painters, não usava vidro para suas pinturas, mas sim superfícies de alvenaria, tendo que utilizar assim a técnica de dupla exposição. Gioffre tinha que fazer uns cinco ou seis testes antes do resultado final, mas valia a pena, como se vê no filme. Forbidden Planet foi sugerido como inspiração/referência para as pinturas, a pedido do produtor Jon Davidson.

Outra técnica da velha guarda utilizada com maestria em RoboCop foi o stop motion, comandada pelo veterano oscarizado Phil Tippet para as cenas com ED-209. Este por sinal foi pensado como uma completa antítese do RoboCop. Se o policial do futuro era “um cara numa fantasia”, ED-209 foi elaborado de uma forma que tal coisa não pudesse acontecer. Parte da inspiração para o visual, criado por Craig Hayes, da menina dos olhos de Dick Jones foi a Baleia Assassina (eu vejo um pouco de Alien ali também…) e foram criados pelo menos três versões distintas do robô. Uma miniatura para as cenas de stop motion, uma em escala real (feita a partir de vários materias como isopor, madeira e fibra de vidro) e uma de cerca de 1,20 cm especificamente para a cena em que ED rola escadas abaixo após seu primeiro confronto com RoboCop (que não foi usada stop motion). Uma miniatura do RoboCop também foi criada para uma cena em que ele usa o braço de ED-209 para destruir seu outro braço. O curioso é que Tippet e Hayes tiveram que trapacear para fazer essa cena, afinal como a cabeça de ED fica bem no meio do caminho, tal façanha não poderia ocorrer.

Naquela época, os técnicos em efeitos especiais, eram verdadeiros ninjas. Como não tinham o apoio de softwares que faziam metade do serviço deles, os caras tinham que se virar com o que tinham a disposição e muitas vezes saiam com soluções genias para passarem alguns obstáculos. Para os takes em que ED-209 atira, Tippet não queria usar dupla exposição para o efeito das chamas, para manter o take o mais puro possível. Como saída, ele instalou flashes de câmeras fotográficas nos canos da metralhadora do robo com algodão e gel colorido. A parada foi tão improvisada que Hayes tomou vários choques ajustando o flash. Então, pra cada frame Tippet ia e colocava o algodão numa forma aleatória . Sim, não é fogo que ED-209 solta de seus canhões, mas algodão!!

Não era o mesmo caso com a pistola do RoboCop. Inicialmente seria usada uma Desert Eagle (a mesma usada na cena de introdução de ED-209 e por Jones no final e pelo Bullet Tooth Tony de Snatch – Porcos e Diamantes, ressaltada em um monólogo no filme que eu adoro), mas ela acabou ficando pequena na mão do robô (é uma baita de uma arma). A solução foi recorrer ao mestre de armas do filme, Randy Moore, que modificou uma Bereta 903R, sendo responsável pelo efeito bacana das chamas que saem da arma quando disparada. Moore a modificou para que lembrasse um sarcófago, fazendo uma sutil referência a morte (como se uma arma em si precisasse de tal ligação…).

O Filme

Murphy-Robocop

Há uma série de fatores que corroboram RoboCop como um clássico do Cinema de ficção científica. No entanto, desde sua concepção por Edward Neumeier e Michael Miner com suas referências e temas, passando pela cuidadosa produção repleta de profissionais gabaritados até a famosa trilha sonora criada por Basil Poledouris (que compôs outra  trilha favorita minha, a de Conan – O Bárbaro), há um fator que se sobressai sobre todos pois, acredito, é o principal responsável pelo sucesso do filme: Paul Verhoeven.

Muito antes de ter contato com o vasto material extra contido no DVD especial de 20 anos do filme (um dos preferidos da minha coleção), eu já creditava o diretor holandês como o grande trunfo do filme. Na verdade, quando descobri que ele não era americano, pois foi aí que percebi o verdadeiro mojo de RoboCop.

RoboCop, muito dificilmente, para não dizer nunca, seria do jeito que foi realizado, dirigido por um norte-americano. O filme enfia o dedo em várias feridas da sociedade americana e ainda dá um sorrisão. Claro, há o mérito dos roteiristas, mas as insinuações textuais são convertidas à forma visual de maneira muito expressiva por Verhoeven, e acredito que diretores norte-americanos seriam muito comedidos quanto a isso, por falta de colhão ou por pura hipocrisia.

Verhoeven, por não pertencer àquele meio, trouxe sua visão estrangeira dos Estados Unidos e sua sociedade, quase que uma visão de raio-x do Super-Homem. Um exemplo recente desse tipo de abordagem da cultura norte-americana, é o filme comentado recentemente neste blog, Iron Sky, que parece que faz mais piada dos americanos do que dos nazistas (é uma produção conjunta da Finlândia com a Austrália).

Nessa onda, eu sou levado a acreditar que a escolha de José Padilha para o vindouro remake de RoboCop, não seja apenas a escolha de um bom diretor do momento, mas sim a escolha de um bom diretor estrangeiro do momento. Minha suspeita é apoiada pelo fato de Padilha ter trabalhado com dois filmes nacionais de sucesso (a duologia Tropa de Elite) que operam temas semelhantes e além, comprovando que tem colhão de descer o cacete na própria sociedade (não que isso seja exclusivo dele no Brasil, mas no cinema nacional são poucos que se dispõe a tal).

RoboCop é aquele ótimo exemplo pra encher a bola da ficção científica como um gênero prático e relevante. Ao mesmo tempo em que enche a tela com ação com muita violência (e bota violência nisso – me lembro de uma vez que passaram o filme na TV Record, num domingo, em pleno MEIO-DIA… o filme ficou com meia-hora de duração…), o filme trabalha vários temas de cunho sério como desemprego, criminalidade, corrupção, privatização, entre outros, e sem fazer muita firula em cima deles.

Cheio de momentos marcantes (como a execução de Murphy e o Emil pedindo ajuda) e palas clássicas (“vivo ou morto, você vem comigo”) embaladas pela já citada épica trilha sonora de Basil Poledouris, RoboCop completa 25 anos ainda tão jovem quanto deve ser a esta idade, mesmo que alguns, hoje, pensem que o robô em si seja tão moderno quanto um PC 486, se esquecendo de que o universo o qual faz parte ainda é tão cruel e real quanto esse em que vivemos.

Tema de Robocop por Basil Poledouris

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