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O ano é 1954 e um senhor simpático, de bochechas sadias e óculos de aro grosso, se senta diante de um grupo de Senadores americanos, na tentativa de defender aquilo que considera sagrado: a liberdade de expressão. No entanto, os congressistas estavam mais do que convencidos de que as histórias em quadrinhos publicadas pela editora de William M. Gaines, a EC Comics, eram fortes contribuintes da delinquência juvenil que assolava os Estados Unidos da era da Caça às Bruxas.

Antes de ser herdada por Gaines após a morte de seu pai, Max Gaines que já foi co-editor da All American Comics, responsável por introduzir hoje personagens clássicos como Lanterna Verde e Mulher-Maravilha, a então Educational Comics era especializada em quadrinhos educacionais e de cunho infantil. Muito contra sua vontade, Bill Gaines sentou-se na cadeira de comando da editora, que rebatizara de Entertaining Comics (ou EC Comics) e, contra as previsões de seu pai, a transformou em uma das principais editoras dos Estados Unidos na década de 1950, com seu pioneirismo nos quadrinhos de terror e ficção científica.

Obviamente, EC não era uma editora de um homem só, tendo grande parte de seu sucesso graças a participação dos editores Al Feldstein e Harvey Kurtzman. Feldstein foi o ponto-chave na nova abordagem que Gaines tinha em mente (Gaines-Feldistein anteciparam a parceria Lee-Kirby), sendo responsável pela tríade que seria o carro chefe da editora: The Haunt of Fear, The Vault of Horror e Tales from the Crypt (uma evolução de Crypt of Terror, também da editora). Feldstein teve a ideia a partir de antigos programas de rádio voltado à histórias de terror, como Lights Out, que apresentava contos de terror explícitos e chocantes, sempre narrados por uma voz que remetia à uma bruxa velha.

A trinca de títulos de terror da EC tinha histórias nos mesmos moldes, de extrema violência gráfica e humor negro, este geralmente mantido pelo trio de narradores, o Crypt Keeper, o Vault Keeper e a Old Witch. E esses elementos eram os grandes diferenciais da EC quanto às concorrentes do gênero que logo infestaram o mercado, seguindo o sucesso desses títulos. Soma-se a isso a talentosíssima equipe artística da editora, formada por nomes como o de Jack Davis, Joe Orlando, Wally Wood, Al Williamson e os já citados Feldstein e Kurtzman, só para citar alguns, que tinham completa liberdade criativa. A editora também foi pioneira em dar voz aos leitores através de suas sessões de cartas e até mesmo criando uma organização de fãs.

Na ficção científica a editora também produziu títulos como Weird Fantasy e Weird Science, títulos que, apesar não terem sido tão bem sucedidos quanto a linha de horror, são hoje considerados clássicos do gênero. Foram nas páginas de Weird Fantasy que a editora publicou a história Home to Stay!, uma adaptação não autorizada de um conto de Ray Bradbury. Gaines era um ávido leitor de ficção científica e muitas das histórias presentes nas páginas de suas várias revistas vinham de adaptações de contos de vários renomados autores de terror e sci fi. No caso de Home to Stay!, Bradbury percebeu a jogada dos editores e enviou uma carta a eles, dizendo que “esqueceram” de lhe enviar os royalties pela adaptação de seu conto. Gaines disse, malandramente, que tentara várias vezes entrar em contato com o autor, mas nunca obtivera sucesso. Aproveitando a deixa, Gaines conseguiu um acordo com Bradbury para adaptar outros 26 de seus contos nos títulos da EC.

Como já citado, o sucesso dos títulos da EC logo criaram um sem fim de clones em editoras concorrentes. No entanto, eles seguiram pra um lado oposto ao da EC que, por não compartilharem da mesma veia satírica, se concentravam mais na violência e sensacionalismo. Sem saída, a única forma de bater a concorrência foi justamente aumentando o nível de violência de suas histórias.

Paralelo a isso, desde o início da década de 1940, a indústria dos quadrinhos vinha sendo alvo de críticas por parte do público quanto a seu potencial dano à formação das crianças. Isso viria a culminar com a publicação do livro Seduction of the Innocent, do Dr. Fredric Wertham, um velho conhecido de quem tem alguma noção de História das histórias em quadrinhos.

Segundo o livro do Dr. Wertham, os quadrinhos eram responsáveis pela deterioração da sociedade ao poluir a mente das crianças com conteúdos inapropriados como violência e homossexualismo. É o Dr. Wertham o comediante que lançou a piada de Batman e Robin serem um casal gay e as histórias da Mulher -Maravilha terem conteúdos sado-masoquistas (ponto pra ele, porque o próprio criador da personagem admitiu isso) e lésbicos (o que apenas prova que a personagem era além do seu tempo, pois previra que ser lésbica um dia seria estar na moda).

Em 1954, o Congresso americano montou um subcomitê de investigação sobre essas alegações direcionadas a todas as editoras envolvidas nas publicações de materiais que, segundo eles, poderiam estar estragando as crianças da América. Em meio a todos, Bill Gaines pediu para que tivesse o direito de se expressar sobre o assunto. Apesar do colhão, o tiro de Gaines saiu pela culatra e não só não contribuiu para suavizar a situação como acabou apontando a fonte do problema para si e sua editora.

A má publicidade em cima da questão logo fez as vendas caírem e os distribuidores se negavam a trabalhar com o material. Assim, as editoras resolveram se unir e criar um código que visasse tornar o conteúdo de suas publicações aceito novamente entre o público ou, em outras palavras, uma auto-censura. Esse código viria a se tornar o Comics Code Authority (CCA). Gaines, que inicialmente fez parte dessa iniciativa, logo pulou fora quando percebeu que estavam caminhando na direção contraria a sua. Ele aparentemente criou antipatia entre seus companheiros do ramo, pois vários nomes que faziam parte de seus títulos, como weird, crime e horror foram proibidos nas capas das publicações, segundo o Código.

Sem saída, Gaines teve que cancelar seus títulos de terror e crime e adotar uma nova linha de quadrinhos, mais realista, chamada New Direction (seria desânimo a falta de criatividade?), com títulos como M.D., Psychoanlysis, Valor, Piracy e Impact e renomeando os títulos de ficção científica. Apesar de se adaptar ao código, as edições não traziam a marca do Código e distribuidores se recusavam a trabalhar com elas. Então, muito a contra gosto, após consultar sua equipe, Gaines deu o braço a torcer.

Ainda assim, a maré de problemas não se acalmou e logo Gaines e Feldstein perceberam que os cabeças por trás do Código queriam tirar a EC do mapa. Um notável incidente que reflete isso, foi com a história Judgment Day, republicada em Incredible Science Fiction #33, de 1956. A história, que foi originalmente publicada em Weird Fantasy #18, de 1953, portanto, antes da instalação do Código, estava cobrindo o buraco para uma outra história, já rejeitada pelo Código. Escrita por Feldstein e desenhada por Joe Orlando (quem leu Watchmen é familiar com esse nome), conta a história de um astronauta humano, representante da República Galáctica, em visita ao planeta Cybrinia, habitado por robôs. Ele encontra os robôs divididos em duas classes, baseadas na cor de sua carapaça, as quais uma possui mais privilégios que a outra. Em vista disso, o astronauta decide que os habitantes de Cybrinia não estão preparados para fazer parte da República e parte. No último painel ele remove seu capacete, revelando a cor negra de sua pele.

O juiz Charles Murphy, o administrador do Código, implicou com a história, dizendo que ela não poderia ter um negro como protagonista, deturpando todo seu  sentido. Feldstein, e Gaines principalmente, foram às últimas consequências com Murphy. Quando Gaines ameaçou processar Murphy por sua ação totalmente sem base, Murphy, achando que estava sendo condolente, disse que permitiria a publicação caso retirassem as cintilantes gotículas de suor, que referenciavam a um céu estrelado, na pele do personagem. Gaines respondeu com um espontâneo “foda-se” e publicou a edição mesmo assim. Isso foi o último prego na tampa do caixão dessa linha editorial da EC.

Muito possivelmente por esse trágico destino dessa pioneira e fabulosa linha editorial da EC Comics é que Mad acabou vindo a ser o sucesso que ainda é. Com o cancelamento definitivo daqueles títulos, Gaines se concentrou em Mad, onde muitos dos artistas que trabalharam nas páginas de crime e terror da EC acabaram migrando e tendo grande sucesso. Publicações como Crime Suspense Stories e Tales from the Crypt ficaram, aparentemente, esquecidas até o inicio da década de 1970, quando foi licenciado o título de Contos da Cripta para um filme em 1972 e um ano mais tarde o de Vault of Horror, contendo vários curtas, baseados nas histórias originais da editora.

Mas a EC só voltaria a chamar a atenção do público, e desta vez com mais força, para seu obscuro brilhantismo no gênero de horror com o lançamento da série para TV Contos da Cripta, de 1989. Apresentado pelo hoje icônico Crypt Keeper, ou Guardião da Cripta, um animatrônico que, segundo os produtores, representa um mix dos três clássicos narradores das hq’s de terror da EC. Com sete temporadas e 93 episódios (tanto a série de TV quanto as hq’s terão posts destacando alguns episódios neste blog futuramente), a série foi produzida por nomes gabaritados como Joel Silver, Robert Zemieckis, Walter Hill e Richard Donner e teve episódios dirigidos e estrelados por vários dos maiores nomes de Hollywood (façanha que não me recordo de outra série ter feito). Uma outra série, mas de menos sucesso, baseada nas histórias de  Weird Science chamada Perversions of Science foi ao ar por 10 episódios em 1997.

Feldstein, um verdadeiro Matusalém, ainda curte sua vida em seu rancho em Wyoming fazendo pinturas baseadas na vida selvagem que o cerca e em releituras de seus desenhos fantásticos. Gaines moreu em 1992 mas partiu com a certeza de que deixara um grande legado para os quadrinhos, não só em seu conteúdo, inovador em estilo e à frente de seu tempo, mas também na forma com que se deve abordá-lo e encará-lo, sendo um exemplo de atitude e caráter, sempre em nome da liberdade de expressão.

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