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Robert E. Howard foi um escritor da era da Depressão para revistas pulp. Prolífico, sempre tentava vender o quanto fosse possivel de seus contos. Histórias rejeitadas tinham que ser reescritas até satisfazer as demandas do editor. E até completamente revisada para poder ser vendida a outros mercados promissores, se a história fosse uma completa falha.

Como foi o caso de The Phoenix in the Sword que REH reescreveu a partir de um conto mal-sucedido do Rei Kull.

O mesmo destino ocorreu com outra história de Howard, mas ao contrário. O conto em questão é The Black Stranger, escrita originalmente como um conto de Conan. Ao falhar na venda do conto, Howard a revisou como um conto de não-fantasia com um outro personagem.

E ainda assim não conseguiu vendê-la.

Somente anos após a morte do autor, The Black Stranger foi publicada como o autor havia concebido originalmente: como uma história do cimério.

E uma história complexa e cheia de reviravoltas surpreendentes bem como a trama do conto em questão, mais conhecido como O Tesouro de Tranicos.

II

Situada nos Sertões Pictos onde Conan combate sagazmente dois rivais piratas pela posse de um tesouro perdido ha muito tempo.

Os pictos por sua vez, estão sendentos para atacar o forte onde Conan e seus inimigos, Strom e Zarono, se refugiaram. Trata-se da fortificada mansão do Conde Valenso de Korzetta – um nobre Zingaro que fugiu para os sertões para escapar a fúria de um antigo misterioso inimigo.

Aparentemente planejada para ser uma continuação do conto Beyond the Black River, onde Conan serviu como um batedor para o exército Aquilôniano nas selvagens fronteiras pictas. Ao inicio da história acompanhamos Conan fugindo sozinho e nú pela floresta com um grupo de guerreiros pictos em seu encalço.

O “Black Stranger” do título era o central – e quase único – sobrenatural elemento da história. Valenso explica a sua sobrinha, Belesa, que quando jovem ele pagou pelos serviços de um feiticeiro para eliminar um inimigo seu. O mago conjurou um demônio para dar conta do serviço, e depois “o jogou no Inferno”.

Mas pelo fato do conde ter tentado trapacear o demônio “do preço que um mortal deve pagar a quem chama o povo sombrio para cobrir sua oferta”, a criatura volta por vingança. Encarnado em uma “forma humanóide de carne”, a criatura estrangulou o mago que originalmente havia o convocado “dos confins dos golfos da existência”, partindo então no encalço de Valenso.

Ao fim da história, o demônio encontra o zingaro e o enforca em uma das vigas do teto. Conan, por sua vez, dá cabo da criatura. Os pictos tomam o posto e apenas Conan, Belesa e sua protegida Tina sobrevivem. No capítulo final, entitulado “Um Pirata Retorna ao Mar”, o cimério avista um navio pirata de passagem e se prepara para embarcar em uma nova carreira como bucaneiro que ele havia seguido anteriormente em The Pool of the Black One (O Poço Macabro – publicada na ESC 27) e Shadows in the Moonlight.

Howard possivelmente enviou The Black Stranger pra seu mercado habitual, Weird Tales, mas o conto jamais foi aceito. Seu colega de ofício, H.P. Lovecraft comentara certa vez que muitos dos contos de Conan eram “puras fábulas de aventura com toques de esquisitices um tanto quanto desnecessárias”, e sua observação se encaixa perfeitamente em The Black Stranger. Farnsworth Wright provavelmente achou o conteúdo fantasia-horror da novelete não suficiente para seu gosto e retornou as páginas devidamente para Howard.

III

Ao inves de se livrar de The Black Stranger como faria um escritor menos inventivo, Howard pegou e brincou com seu material um pouco, tentando transformá-lo em uma fábula vendável a partir das páginas rejeitadas.

No fim, a trama que ele concebera era digna, e o tema do épico herói jogando um inimigo contra o outro era irresistível – pelo menos para Howard, que também usou a ideia em The Blood of Belshazzar, The Country of the Knife and muitos outros trabalhos.

De qualquer forma, não vendo necessidade em mater The Black Stranger uma fantasia de espada-e-magia, Howard devidamente tranpôs a trama base para um cenário do século XVII, e transformou o tormento de Valenso em uma Coisa de outra dimensão. Os Sertões Pictos do original se tornou a costa oeste da América do Norte, os Pictos se tornaram indios (possivelmente os canibais Karankawas da velha Costa do Golfo), e os piratas Barachos e saqueadores zingaros, bucaneiros ingleses e corsários franceses respectivamente.

Howard transformou Conan em Black Terence Vulmea, um grande pirata irlandês de cabelos negros com toda a “vitalidade de ferro” de sua contra-parte ciméria. Em The Black Stranger, o tesouro que Conan e seus inimigos procuravam era um entulho de jóias roubadas de um príncipe stigio exilado por Tranicos, “o maior dos piratas barachos”. Na nova trama, Howard espertamente identificou as jóias como as pertencentes ao rei asteca Montezuma, pilhadas por Cortez em 1524 e subsequentemente saqueadas pelo corsário italiano, Giovanni de Verrazano.

Howard renomeou a nova versão Swords of the Red Brotherhood, mas manteve a subtrama em volta do Conde Valenso – nesta encarnação um nobre francês com o impossível nome de Henri d’Chastillon. Entretanto, desta vez, o nêmese de Valenso/d’Chastillon não era um demônio da Zona Negativa, mas um curandeiro africano que fora sócio do conde num empreendimento de tráfico de escravos. D’Chastillon mais tarde traiu o curandeiro e “o vendera para espanhóis que o acorrentaram a galera de um navio”- mas não permanentemente, para a aflição do Conde.

Red Brotherhood assemelha-se a The Black Stranger cena por cena, até o episódio em que o curandeiro/demônio conjura uma tempestade para frustrar mais uma ação do aterrorizado Conde Henri/Valenso. Ao final da revisão, Black Vulmea mata o curandeiro ao arremessar uma bancada de prata no sujeito, arremessando-o contra o fogo enraivecido; o mesmo método usado por Conan para se livrar do monstro em The Black Stranger (onde o cimério nota que “prata e fogo são ambos mortais para espiritos malignos”).

Como no original, o tesouro em Red Brotherhood é escondido em uma caverna no meio de uma floresta, junto aos corpos dos corsários que os roubaram 100 anos antes. As jóias são guardadas por uma névoa venenosa que Conan em The Black Stranger identificou como “fumaça do fogo do inferno”, levada a caverna depois de “um shaman picto fez magia e chacoalhou a terra”.

Estranhamente, Howard na reescritura pegou de The Black Stranger uma incompatível referência a “demônios da floresta”, assim transferindo pelo menos um elemento da demologia picta hiboriana para um ambiente indigena norte-americano.

Como seu antecessor, Swords of the Red Brotherhood não vendeu, mas Howard teve um pouco melhor de sorte com um segundo, levemente mais curto conto de Vulmea. Este foi Black Vulmea’s Vengeance, publicado na revista pulp de curta duração Golden Fleece dois anos após a morte do autor. Quase quatro décadas depois, em 1976, Red Brotherhood finalmente foi visto nas páginas de Black Vulmea’s Vengeance, um capa dura de edição limitada do editor de histórias de fantasia Donald Grant o qual incluía também a história título e um terceiro conto de pirata, este, não protagonizado por Vulmea.

A coleção desde então foi republicada em duas edições de bolso – nada mal para um personagem originalmente concebido como nada mais do que um come-sobra do mais famoso Conan.

Interessantemente, Black Vulmea’s Vengeance foi adaptado por Roy Thomas e John Buscema como uma história de Conan, Revenge of the Barbarian, para uma edição especial colorida de 1978 da Savage Sword of Conan. Assim completando todo o círculo da saga Conan/Vulmea.

IV

E o que foi de The Black Stranger?

Bem, enquanto Robert E. Howard se ocupava com Swords of the Red Brotherhood, The Black Stranger empoeirava em seus arquivos de trabalhos rejeitados. Foi apenas em 1951, quinze anos após o falecimento de Howard, que a história viu a luz do dia novamente.

Celebrado autor de ficção científica e fantasia L. Sprague de Camp desenterrou “Stranger” e dois outros até então não publicados contos de Conan em um lote de trabalhos de Howard. Ele então partiu para trabalhar em uma extensiva reescritura para “encaixar a história mais confortavelmente na série como parte de um todo”, explicou em sua introdução para a coleção de 1953 King Conan da Gnome Press.

Na revisão de de Camp, Conan foge para os sertões pictos para escapar ser assassinado pelo Rei Numedides da Aquilônia. O cimério explica a Belesa que ele havia sido promovido a general após liderar o exército aquiloniano em algumas vitórias contra os pictos. Entretanto, Numedides criou inveja do sucesso popular do cimério e tentara encarcerar e executá-lo.

Escapando da prisão, Conan (de acordo com de Camp) cavalgou para os MARCHES Bossonianos numa tentativa de agrupar tropas provincianas para seu lado. Ao invés, ele acabou fugindo sem direção de soldados leais a Numedides, sendo forçado a nadar o Thunder River para escapar da perseguição. Pouco após ele foi capturado temporariamente por pictos onde, a partir deste momento, suas ações se igualam as descritas por Howard em seu conto original.

De Camp, então, colocou sua versão da história um pouco depois na carreira do cimério do que fez Howard em sua versão – onde Conan ainda estava servindo na fronteira como um batedor buxa de canhão.

Também, de Camp alterou o final para que assim o navio avistado por Conan fosse, não um navio pirata, mas uma galera carregando um bando de insatisfeitos nobres aquilonianos. Os nobres haviam usado meios mágicos para localizar o cimério, o qual eles enlistam para liderar uma revolução contra Numedides. De Camp afirmara que a narrativa concebida originalmente por Howard criaria “sérias dificuldades cronológicas” por interpor um período de pirataria entre o serviço de Conan na fronteira e sua subida ao trono.

Em um lance até mais importante, de Camp alterou a identidade do “Black Stranger” temido pelo Conde Valenso. Ao invés de um demônio antropomórfico, o personagem se tornou Thoth-Amon, o feiticeiro stygio que aparecera como coadjuvante em A Fênix na Espada e que é mencionado – mas não aparece – em The God in the Bowl e The Hour of the Dragon.

Assim, na revisão de de Camp, é Thoth-Amon quem Valenso contrata para eliminar seu inimigo. O Conde então passa a perna no mago, não lhe pagando a fortuna prometida, criando a ira no stygio.

De Camp fez da névoa venenosa na caverna com o tesouro, um demônio envocado por um shaman picto um século antes. Este demônio era a analogia ao “Black Stranger” de Howard. No climax da revisão, Thoth-Amon liberta o monstro e o lança contra Valenso em uma cena que é virtualmente identica a original escrita por Howard.

A reescritura de The Black Stranger foi o primeiro esforço de usar Thoth-Amon como um coadjuvante em uma história do Conan não escrita por Howard. Subsequentemente, Thoth-Amon se tornou uma espécie de Fu Manchu da era Hiboriana nos PASTICHES escritos por de Camp e Lin Carter (e um por Roy Thomas, incidentalmente), vindo com plano atrás de plano mirabolante contra o cimério. Curiosamente, em A Fênix na Espada, o arco-inimigo de Thoth não era Conan, mas um nobre fora-da-lei chamado Ascalante; na verdade, Conan e Thoth-Amon nem se quer se encontram no conto!

Além das vastas revisões, de Camp também editou e reescreveu muito da narrativa de Black Stranger. Ele também mudou nomes de alguns dos personagens por inúmeras razões – por exemplo, o nome do príncipe stygio saqueado por Tranicos na versão de Howard era “Tothmekri”. De Camp alterou para “Maat-neb”, acredita-se para evitar confusão com Thoth-Amon.

A “colaboração” Howard/de Camp eventualmente apareceu na edição de Março de 1953 de Fantasy Magazine. De Camp a renomeou O Tesouro de Tranicos, mas o editor de Fantasy Lester del Rey (que viria a ser a dirigir a Del Rey Books) manteve o título original de Howard “Black Stranger”. Somando a isso, del Rey encaixou vários parágrafos adicionais na história antes da publicação, incluindo uma curta seção introdutória.

Gnome Press republicou a versão Howard-de Camp-del Rey no supra citado volume King Conan, como… você adivinhou… O Tesouro de Tranicos.

Mais 14 anos depois, “Tranicos” foi publicada como livro de bolso pela Lancer Books na coleção Conan o Usurpador. Para essa publicação, de Camp mais uma vez revisara a história, deletando o material adicionado por del Rey e editando a prosa original de Howard de forma menos rigorosa. Ele manteve o personagem Thoth-Amon e a estrutura dos problemas de Conan com Rei Numedides, mas restaurou os nomes dos personagens que modificara anteriormente, incluindo o príncipe Tothmekri.

O conto foi publicado com seu título original pela Del Rey Books em The Conquering Sword of Conan (2005) e em The Complete Chronicles of Conan”(2006) pela Orion Books. O alter-ego do conto Red Brotherhood também pode ser encontrado disponível nas edições da Zebra e Baronet de Black Vulmea’s Vengeance. No fim de tudo, uma bela exposição para uma história que Robert E. Howard deva ter considerado um projeto amaldiçoado durante sua própria vida!

*Artigo originalmente escrito por Fred Blosser na edição número 47 de Savage Sword of Conan, dezembro de 1979.

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