Tags

, , , , , ,

Início do século XIX. Um cientista italiano começa sua busca de ser Deus ao trazer vida a seres inanimados através de metódos artificiais.

Se pensou que estava falando de Victor Frankenstein, o cientista italiano do início do século XIX que viria a dar vida à uma terrível criatura por metódos artificiais no livro de Mary Shelley, errou.

Na verdade, me referia a Giovanni Aldini, físico italiano que, em 1803 tentou reanimar o corpo do recém-executado George Foster em Londres. Talvez você nunca tenha ouvido falar sobre Aldini, mas muito provavelmente ouviu sobre seu tio, Luigi Galvani, ou pelo menos no fenômeno entítulado a partir de seus experimentos, o galvanismo (cunhado pelo seu colega/adversário Alessandro Volta).

As experiências de Aldini na tentativa de reanimar corpos com bioeletricidade, vieram a partir dos experimentos de seu tio e sua demonstração pública com o corpo de Foster fora sua última tentativa. Adicionando um elemento dramático a esse ato, hoje acredita-se que Aldini tenha realizado sua demonstração final no corpo de um réu inocente.

Segundo o Newgate Callendar (um boletim relatando as execuções realizadas na prisão de Newgate – que pode ser encontrado como peça de literatura para aqueles interessados na narração de reais execuções) “Na primeira aplicação do processo no rosto, a mandíbula do falecido codenado começara a tremer, e os músculos adjacentes contorceram horrivelmente, e um olho de fato abrira […] a mão direita erguera-se cerrada e as pernas começaram a mover”. Mas o fato é que, como as pernas de sapo dos experimentos de Galvani, o corpo de Foster nunca passara dos espasmos; seu corpo enterrado e Aldini seguiu sua vida, chegando a tornar cavaleiro da Ordem da Coroa de Ferro pelo emperador da Austria em reconhecimento por seus méritos.

No entanto, as semelhanças entre as experiências de Aldini e a obra de Mary Shelley vão além de mera coincidência. Apesar de Shelley nunca mencionar diretamente à sua obra, a autora citou relatórios dos experimentos de Galvani como parte de uma lista de leitura em um chuvoso verão na Suíça, durante o Ano Sem Verão, época em que criara o conceito de Frankenstein a partir de uma competição sugerida por Lord Byron. Somado a isso, a demonstração pública de Aldini com o corpo de Foster fora um grande evento em 1803 – 13 anos antes da concepção, 15 anos antes da publicação da obra – e embora seja apenas suposição, difícil imaginar que não tenha chegado aos ouvidos/olhos da autora.

O interessante é que, apesar do galvanismo ter sido de fato mencionado durante aquele sombrio verão em 1816, e as experiências de Aldini utilizando o mesmo método em um ato da grande repercussão em Londres em 1803, a teoria mais popular da inspiração para a concepção de Frankenstein é a que recai sobre Johann Conrad Dippel, e que carece de base para seu suporte.

Dippel foi um teólogo e alquimista alemão que viveu entre 1673 e 1734 e que, notavelmente, nasceu em um castelo chamado… Frankenstein!! Figura controversa, esta possa ser a grande razão pela qual tantos serem fascinados por sua persona e simpatizarem com a possibilidade de sua inspiração para Frankenstein.

Dippel não só nasceu no castelo homônimo à obra de Shelley, mas ele de fato engajou em atividades digna dos cientistas loucos da ficção científica. Durante sua estada no Castelo Frankenstein, o alemão realizou várias experiências com alquimia e anatomia (pintando na mente de muitos a clássica imagem do cientista louco enclausurado em seu castelo). Ele criou o Óleo de Dippel, um óleo animal que, segundo ele, era o equivalente ao Elixir da Vida perseguido por tantos alquimistas. Um fato notável deste óleo é que, segundo o pesquisador George Ernst Stahl, tal óleo teria sido essencial para a concepção da cor Azul da Prússia,  usado, por exemplo, na famosa pintura do artista japonês Katsushika Hokusai, A Grande Onda de Kanagwa.

Rumores de que Dippel fizera terríveis experimentos com cadáveres no intuíto de transferir a alma de um para o outro, só servem para alimentarem a fascinação por este surreal alquimista. Transferência de almas era uma teoria com que Dippel simpatizara e escrevera a respeito em seus relatórios, deixando a possibilidade de que eram mais que rumores. Ele dissecava animais constantemente e chegou a afirmar que descobrira tanto o Elixir da Vida quanto os meios para se exorcizar demônios através de poções que ele concebera através de carne e ossos de animais cozidos. Dippel fora expulso de vários países, como Suécia e Rússia e já passou sete anos encarcerado devido a suas experiências hereges.

Nos últimos anos de sua vida Dippel deixara sua fé de lado e dedicara-se exclusivamente à alquimia e montara um laboratório próximo a Wittgenstein, Alemanha. Para os mochileiros de plantão chegados no assunto (inclua-se aí, eu) fica a sugestão de que seu laboratório foi convertido em um pub, nomeado a partir de sua pessoa, chamado Dippelshof.

Irônicamente, um ano antes de sua morte, ele escrevera um panfleto onde afirmara ter descoberto um elixir que seria capaz de mantê-lo vivo até a idade de 135 anos. Muitos suspeitam que ele morrera de envenamento (teria o tiro saído pela culatra?).

O tanto que escrevi sobre esse singular alquimista em relação a Aldini serve de evidência para o porquê de tantos suportarem a possibilidade de sua inspiração para a obra de Shelley. Dippel serviu de inspiração, pelo menos, para diversas obras de ficção inspiradas por sua pessoa ou pela sua relação com Frankenstein. Obras como The Earth Will Shake, de Robert Anton Wilson; The Frankenstein Murders, de Kathlyn Bradshaw; The Frankenstein-Dracula War, de Roy Thomas; Frankenstein’s Womb de Warren Ellis; Blood Oath, de Chistopher Farnsworth; Dippel’s Oil de G.M.S. Altman entre várias outras.

Tendo ou não influenciado na concepção de Frankenstein, o importante é que a história e rumores destes dois dintintos homens da ciência só coloboram para deixar ainda mais aterrozante e reflexiva a obra da autora inglesa, muito seguramente a primeira ficção científica da Literatura.

Anúncios