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Este post contem spoilers da série em quadrinhos (e o seriado) Walking Dead!!

A 3ª temporada de The Walking Dead já começou e não faço muita ideia do que está acontecendo a não ser pelo fato de que está se explorando a trama da prisão presente nas HQ’s. Não assino TV por assinatura e não baixo episódios da internet (mas se aparecerem dando mole, como no HD do meu cunhado, eu assisto :p). Na verdade foi assim que assisti a 2ª temporada completa e algo semelhante ocorreu com Game of Thrones, mas que ficou com sensação de foda interrompida, afinal ele só tinha os três primeiros episódios da 2ª temporada.

Semana passada chegou minha edição do segundo volume do Compendium (edições 49 à 96) da série em quadrinhos do Walking Dead e a bati em três noites. Eu tinha aquela expectativa do que Robert Kirkman iria trazer para a série após a derradeira trama da prisão no último Compendium (que abrange as edições 01 à 48). O que o escritor iria tramar para conseguir equiparar (no mínimo) com aquela épica conclusão?

Honestamente, já vou adiantando que ele não conseguiu. Mas calma lá. Em uma falha (ou não, não posso sacar o que o cara tem em mente), há vários outros acertos durante essa nova leva da série. Pra começar, é natural esta expectativa do que virá a seguir após aquele encerramento. E se for parar pra pensar, também era de se esperar que o ritmo fosse cair. Mas como disse, quando tudo está preparado para outro grande evento na série, este ainda não é capaz de superar o que Kirkman conseguiu com a trama da prisão.

Nesse interím, novas facetas dos personagens remanescentes são exploradas e novos personagens são introduzidos. Tem-se a impressão que estes personagens são como ratos no laboratório apocalíptico criado por Kirkman e o resultados dos experimentos são bastante interessantes. Aqui fica claro o que muita gente já esperava em relação a Carl, em sua modelagem nesta terra inóspita e agora com Rick e Carl a sós, cria-se um paralelismo com o Homem e o Garoto em A Estrada, embora aqui, num nível mais extremista. Rick por sua vez, consegue se manter o personagem mais interessante, ao criar conotações de vilão (aqui, um mero ponto de vista e que, de tabela, ajuda a entender a figura do Governador) e seu caso com Andrea apesar de não chegar a ser uma surpresa (o desenvolvimento da história te faz conjecturar isso a partir de certo momento), o que há por trás disso para Andrea, sim. O passado de Michonne se torna menos nebuloso (e o autor faz até piada do papel da personagem nas histórias) e muitos personagens “peso morto” são descartados (no caso dos gêmeos, é quase um “combo hit“).

Kirkman nos apresenta à uma nova leva de personagens, mas fica evidente que apenas alguns deles não serão descartáveis a curto prazo  – e ele também prova que mesmo os que vão ser descartados em breve, tem direito a um espaço e desenvolvimento decente. E é curioso também notar que, a história chega a um ponto em que, assim como dentro das histórias, a perda do próximo começa a se tornar lugar-comum, essa mesma impressão é passada ao leitor, restringindo o apreço a apenas uns poucos personagens.

Abraham, que dá aquela impressão de substituto de Tyreese, mesmo sendo claramente um personagem diferente, me chamou a atenção para algumas inconsistências de Kirkman ao longo de toda a série. Em sua introdução, Abraham mostra ser sangue frio em geral, dando cabo de três zumbis facilmente sem o uso de armas de fogo. No entanto, logo a seguir, o personagem nos mostra certo desespero ao lidar com as criaturas, especialmente na ocasião involvendo Maggie, ficando a impressão de drama forçado – e a carga dramática de novelão nessas histórias é bem maior que nas anteriores, mas sem aquele ar de naturalidade. O uso de tiros para chamar a atenção dos zumbis, também não tinha essa precedência – e a consequência disto nos muros da Comunidade te faz pensar porque isso também não ocorreu na prisão. Outra “lincença” de Kirkman, vem das primeiras edições, onde Shane demora para se transformar em zumbi o suficiente para ser enterrado sem suspeitas disso. No entanto, na prisão, quando descobrimos que todos os personagens podem estar contaminados “by default“, a filha de Tyreese se transforma em zumbi quase que instantaneamente.

Pode parecer besteira isoladamente, mas se olhar no geral, isso afeta a qualidade das histórias, dando a impressão de que Kirkman subestima a inteligência de seus leitores ou que todos têm a memória de Leonard Shelby. Fora esses deslizes de Kirkman, o autor ainda mostra sagacidade com o uso de personagens como Eugene, que ele usa para pagar um “trote” nos personagens – mas melhor ainda, nos leitores – e nos presenteia com um personagem bastante promissor chamado Jesus.

Kirkman conclui a 96ª edição conseguindo manter a atenção dos leitores e a promessa de que algo das proporções dos eventos da prisão estará para acontecer.

Enquanto isso, na TV, o seriado parece dividir opiniões, mas o fato é que os números a mostram como um sólido sucesso. A maioria das pessoas descontentes com a série, se referem aos rumos diferentes que toma em relação às hq’s. Ora, qual a graça de seguir uma série onde praticamente se sabe de tudo que está para acontecer?

Acredito que a 2ª temporada foi insatisfatória para uma parcela do público pelo fato da 1ª, mesmo com certas diferenças, ter sido bastante similar às primeiras edições dos quadrinhos. Creio que o importante é o seriado manter o clima da fonte e caminhar com pernas próprias. Eu, por exemplo, achei a opção de prolongar a permanência de Shane bastante satisfatória, afinal eu tinha tido a impressão de que o personagem não havia sido explorado devidamente nas hq’s. E, pelo menos para mim, ao final há um certo ressentimento com o destino do personagem no seriado, enquanto na hq, há apenas alívio, e para o seriado, é um ponto positivo. Sophia também ainda não sei o que faz nas hq’s. É uma personagem que, se Kirkman tem alguma intenção com ela, ainda assim pode facilmente ser substituida, como Abraham substituiu Tyresse como o brucutu/amigo/conflitante de Rick. E o seriado acertou ao causar surpresa com o destino da garota. Outro ponto positivo do seriado foi dar as devidas proporções ao incidente de Carl na fazenda de Hershel, que nas hq’s acaba dando a impressão de que não houve grande risco envolvido.

Não que o seriado tenha que agradar a todos, mas reclamar da falta de semelhança (ou seja, bobagens) entre o seriado e a fonte fica parecendo preguiça mental, tirando a atenção de verdadeiras falhas e, mais importante, dos verdadeiros deleites.

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