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Semana passada foi anunciado a possível nova identidade do Homem-Aranha que dará continuidade às histórias do Aracnídeo após o encerramento de seu tradicional título Amazing Spider-Man na edição 700.

Entitulada Superior Spider-Man, chegou a ser cogitado que a nova identidade do Cabeça-de-Teia poderia ser Miguel O’hara, o Aranha da versão 2099. Mas para a surpresa de todos, para Dan Slott, o atual roteirista das histórias do Aranha, o buraco é bem mais em baixo.

Eu acredito que, mesmo como essa notícia não é mais nenhuma novidade, alguns podem estar totalmente por fora – e esses provavelmente não estão nem aí com que se passa com o Aranha – então aviso-os do spoiler a seguir.

A especulação é de que o Dr. Octopus, prestes a bater as botas devido a uma doença degenerativa (o cara sofre…), de alguma forma consegue trocar de corpo com Peter Parker. Ou seja, ele no fim dá a volta por cima do herói, fica com o corpo, e memórias, de Parker – que muito provavelmente a primeira coisa que vai fazer é correr atrás da Mary Jane – e este vai pro corpo definhante de Octopus, só pra falecer depois do vilão contar – parte – de sua super-façanha.

Assim, os leitores iriam acompanhar, a partir de Superior Spider-Man, as aventuras de Peter Octavius, ou Otto Parker o Homem-Octopus. Isso encaixaria nas informações de que o novo Aranha seria mais sombrio e agressivo mas, por outro lado, pô, o Dr. Octopus é vilão de carteira assinada, sempre fez merda porque quis. Ou seja, não vai dá pra engolir ele bancando o herói. A não ser que Slott queira inovar o conceito e colocar, como protagonista, um herói de atitude duvidosa, que até faz o bem, mas por interesses próprios.

A este ponto, também já não é novidade que a maioria dos leitores estão pirados (talvez você mesmo, que está lendo isto neste momento, por exemplo) com a ideia, mesmo esta sendo interessante.

E é aqui que, após essa longa introdução, usando o recente exemplo do Aranha como alicerce, que eu trabalho a real ideia deste post. O fato é que, não importa o quanto interessante é a ideia, assim como foram várias outras com muitos outros personagens das hq’s, elas sempre tendem a falhar pelo fato de estarem sendo inseridas em personagens que já estão na estrada há décadas. Eu nem vou pesquisar e vou falar com confiança que, pelo menos 95% dos atuais leitores de personagens como os da Marvel (que são mais recentes que os pica-grossa da DC como Super-Homem e Batman) nasceram depois da concepção destes.

Não que eles não estariam mais vivos, mas que, mesmos os mais fervorosos fãs da mídia, não conseguiriam manter o interesse. Eu mesmo parei de ler histórias regulares do Aranha há uns 8 anos, continuando com as do universo Ultimate, que eram um começo fresco e sem ligação – direta – com o universo original, onde qualquer alteração era isenta da continuidade daquele.

E o motivo foi justamente essa novela sem fim que são as histórias de super-heróis. É difícil manter o interesse por um personagem que usava calças boca-de-sino nos anos 70 e, sem ganhar uma ruga, testemunha grudado na parede um arranha-céu, a queda das torres do World Trade Center. Pô, o Justiceiro esteve na Guerra do Vietnã! Eles amarram os personagens a fatos históricos como se isso não tivesse nenhuma real importância a não ser o de ilustrar o background deles – a própria sacada com o Capitão América de ficar congelado cerca de 20 anos após a Segunda Grande Guerra perde o peso depois disso, uma vez que ele, e os Vingadores que o encontraram, ganharam um ruguinha depois disso.

Hoje garimpo as histórias antigas de super-heróis, leio as séries limitadas da Vertigo e algumas séries – também de começo, meio e fim – Européias (e Walking Dead, claro). Gosto de ler uma hq nos moldes de um livro, que te dê um senso de conclusão. Até mesmo o universo Ultimate eu abandonei ao perceber que tomava o mesmo rumo do universo original – e até mesmo ao invés de andar com suas próprias pernas, ficava retrabalhando ideias do universo tradicional.

O universo Ultimate da Marvel, por sinal, é o mais próximo que presenciei do ideal que imagino para o gênero lucrativo dos super-heróis. Claro, esperar que a Marvel e DC sacrifiquem suas galinhas dos ovos de ouro em prol de “mero” esmero, é querer demais. O que acho ideal é que, similar aos reboots que a DC veio fazendo recentemente, essas editoras encerracem esses longêvos títulos com chave de ouro, todos ao mesmo tempo, porque eles volta e meia interagem uns com os outros, e os reiniciassem, mas não para mais 50 ou 70 anos de histórias sem fim cheias de reboots aos trancos e barrancos, mas com um épico final planejado. E que isso seguisse um ciclo.

Pensando dessa forma os escritores praticamente não teriam barreiras para explorar esses personagens. Tão sonhados eventos como um derradeiro embate entre Batman e Coringa finalmente poderia acontecer; personagens poderiam ser sacrificados sem ter que serem ressucitados – o que é sempre ridículo – ou decisões drásticas poderiam ser tomadas sem ter que se preocupar em revertê-las, porque elas simplesmente chegarão a um ponto final e um novo recomeço poderia ser feito, sem se preocupar com o que foi feito anteriormente. O Cinema é um exemplo de como isso funcionaria, com personagens como o próprio Batman tendo várias empreitadas distintas na telona ou o cult seriado da década de 60. Batman de Nolan, Burton/Schumacher  – até ele -, o  protagonizado por Adam West, ou o desenho animado dos anos 90, várias formas distintas de se apreciar o mesmo personagem, sem uma interferir com a outra.

Sagas como a dos clones do Aranha, a coluna quebrada de Bruce Wayne e até mesmo a morte do Super-Homem poderiam ter sido levadas a cabo e talvez suas qualidades nunca seriam questinadas. Sim, eu não acho a Saga dos Clones ruim e suas raízes não são muito diferentes dessa nova empreitada de Dan Slott.

Nem se pode culpar os leitores por intolerância, afinal há de esperar um apego a esses personagens e mudanças são sempre um problema. Mas se as histórias fossem encaradas dessa forma, com início, meio e fim, talvez elas seriam mais receptíveis. Sei que certos leitores ficaram descontentes com o fato de Peter Parker ser recriado como um web designer ao invés do tradicional fotógrafo no universo Ultimate, por exemplo, mas logo eles aceitaram as mudanças – e um novo apego se formou, diga-se de passagem.

E esses apegos são um reflexo de cada geração. A minha, e muitas outras antes, são acostumadas a presença do mordomo Alfred como fiel escuderio de Bruce Wayne embora ele só fora introduzido nas histórias do personagem em 1943; ou outros ficaram contra a mudança do Hulk de verde para cinza, sem nem ao menos se tocarem que cinza foi a cor original criada para o personagem. São apenas dois, de muitos exemplos de como é difícil acompanhar tais personagens através de décadas e décadas.

Infelizmente a realidade é que tal iniciativa das grandes editoras de super-heróis jamais acontecerá, respaldada pelo fato de que leitores vem e vão, sendo esse, o único ciclo que se renova na industria dos Quadrinhos.

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