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Iron Maiden Somewhere in Time

Música é uma expressão artística milenar. Por eras e eras ela foi usada como forma de passar de geração para geração lendas e folclores de várias culturas, e até mesmo depois do advento da literatura, bardos ainda a usavam para narrar feitos heroicos de seus reis. E mesmo nos dias de hoje, muitas bandas ainda percorrem o caminho de contar histórias fantásticas através da música. Com o filme Faroeste Caboclo  baseado na canção de mesmo nome da banda Legião Urbana, chegando este ano, resolvi criar uma lista com algumas canções e álbuns de temática fantástica, terror ou ficção científica que poderiam inspirar uma obra de ficção.

Rush – By-tor and the Snow Dog

By-tor and The Snow Dog é a real inspiração deste post. A canção do Power Trio canadense narra o confronto do Príncipe By-Tor, que é “gentilmente” descrito como o cavaleiro das trevas, centurião do mal e príncipe do diabo, contra Snow Dog em seu covil. Não fica exatamente claro se Snow Dog é literalmente um animal, ou o nome de guerra de um guerreiro, mas o fato é que ele é o herói da narrativa. Snow Dog chuta o traseiro de By-Tor, em uma passagem da música sem letra alguma, mas que a melodia em si é eficientemente capaz de narrar por si só, especialmente com o encerramento da batalha carimbado por um excepcional solo de Alex Lifeson, que decorre por pouco menos de um minuto, deixando com gostinho de quero mais.

O interssante é que By-Tor aparece em outra canção do Rush, chamada The Necromancer – outra que valeria um conto – mas aqui como o herói e claramente sem dúbias intenções. The Necromancer faz parte do álbum Caress of Steel, que saiu logo após Fly by Night, que contem By-Tor and the Snow Dog.

Rush – 2112

Outra do Power Trio, 2112 é a minha canção favorita da banda. The Overture, onde Neil Peart dá a impressão de ter 80 braços, é simplesmente uma das melhores coisas que já ouvi tratando-se de rock ‘n roll. A frase recitada por Geddy Lee ao final de Overture, “And the meek shall inherit the Earth” é citada por Yorick Brown na série Y: The Last Man da Vertigo (o poço de referência pop que é, duvido que Yorick se referia à passagem bíblica).

Toda a canção transcorre por épicos vinte minutos e trinta e sete segundos e é dividida em sete partes: Overture, The Temples of Syrinx, Discovery, Presentation, Oracle: The Dream, Soliloquy e Grand Finale.

O nível da letra de 2112 é digna de um verdadeiro conto de FC/Fantasia – a música mistura os dois gêneros, como Duna e Star Wars. A letra é acompanhada de narrativa adicional que não aparece na música, criando mais profundidade a trama narrada.

A música narra a trajetória do protagonista no ano 2112 na cidade de Megadon, parte da distópica Federação Solar, cujos edifícios são tão altos que se confundem com o céu adornado com suas luas gêmeas. O protagonista deve ser alguém importante, devido ao seu acesso sacerdotes do Templo de Synrix, onde toda a cultura da população é controlada. Ele parece satisfeito com a vida que leva até encontrar, atrás de uma cachoeira, um artefato musical – que a música sugere ser uma guitarra. O protagonista, eufórico com sua descoberta e pelo som que o artefato produz, decide compartilhar o achado com os sacerdotes, que sem surpresa, tomam ofensa com tal ato. Tomado por profunda angústia pela rejeição, o protagonista percorre as ruas de Megadon, onde um oráculo se apresenta a sua pessoa e compartilha uma visão de que uma Raça Antiga estaria retornando para tomar o que lhes é direito. Aparentemente sem dar muito crédito à visão do oráculo, o protagonista segue seu caminho e tomado por profunda tristeza, ceifa sua própria vida, enquanto ao mesmo tempo a visão se concretiza e a Raça Antiga retoma o controle da Federação Solar.

Pink Floyd – Lost for Words

Pink Floyd é minha banda favorita e sendo um grupo que já se aventurou pelas estrofes do Space Rock, seria sacanagem deixá-lo de fora.  No entanto, devido ao caráter lisérgico das letras de Syd Barret, que escreveu a grande maioria das canções do grupo durante essa época, as músicas são extremamente vagas e requer um pouco de esforço para enxergar uma estrutura sólida para imaginar uma trama ali. O que não é defeito algum, ao contrário, a interpretação individual que temos de músicas deste tipo é que insere grande parte da qualidade à elas.

E o mesmo se aplica ao álbum The Division Bell, onde por adotar o tema da comunicação, uma simples ferramenta para chegar a finalidades sem turbulências em seu caminho, muitos o vêem como uma referência para os desentendimentos de longa data da banda com Roger Waters – algo que David Gilmour nega.

E é justamente esse caráter vacante que me permite enxergar em Lost for Words uma história pós-apocalíptica. Ao contrário das canções do início da carreira da banda, The Division Bell contem canções que possuem uma estrutura onde se pode encaixar uma história. Versos da canção até remetem, ao meu ver, à obras como The Road, I’m Legend e The Time Machine.

Black Sabbath – Iron Man

Este clássico do Black Sabbath, do álbum Paranoid, narra a missão de um sujeito que viaja para o futuro e se depara com o apocalipse. Ao retornar ao passado, no intuito de avisar a humanidade de sua descoberta, o personagem é pego em um campo magnético e transformado em uma entidade de aço e incapaz de se comunicar verbalmente. O processo também deve ter afetado a capacidade mental do personagem, afinal ele poderia se comunicar de outras formas. O que ainda corrobora para isso é o fato de Iron Man despirocar quando as civilizações ignoram seus avisos e o tiram de palhaço e decide, então, descer o sarrafo. O que, como acontece similarmente na trama de Exterminador do Futuro, faz com que o personagem seja o centro da causa que leva a humanidade ao Armagedom, em um ciclo aparentemente inevitável. Ou seja, uma canção que trabalha o subgênero de viajem no tempo melhor que muita obra de fato que se vê por aí.

Queensryche – Operation: Mindcrime

Operation: Mindcrime foi um dos grandes sucessos da banda Queensryche, o que rendeu até uma sequência para a trama narrada no álbum conceitual. Apesar de vários clichés, Operation: Mindcrime tem uma trama com potencial pra render uma história de qualidade, afinal, o cliché em si não é um mal, se trabalhado devidamente.

O álbum narra a história de Nikki, que acorda em um hospital, com uma memória de queijo suíço. Uma reportagem na tv sobre uma onda de homicídios de cunho político começa a embarcá-lo em uma viajem em sua mente perturbada. Ele começa a se lembrar de como fora manipulado, sendo um viciado em heroína com aspirações a radical político, a entrar em uma sociedade secreta revolucionária. A organização é comandada por um demagogo envolvido com política e religião conhecido apenas como Dr. X, que adquire controle sobre Nikki através de técnicas de lavagem cerebral e uso de sua dependência química. Assim, sempre que o Dr. necessitasse dos serviços de Nikki, era só proferir a palavra “Mindcrime” e Nikki estaria totalmente sob seu controle para perpetrar assassinatos ordenados por ele.

Através do padre William, um aliado corrupto do Dr. X, Nikki é deixado aos cuidados da irmã Mary, uma prostituta reformada. Seu envolvimento com Mary começa a fazer com que Nikki repense seus atos. Ao perceber isso, Dr. X ordena que Nikki se livre do padre e da irmã Mary. Nikki se encarrega de William, mas quando confronta Mary, o controle do Dr. sobre ele falha, fazendo com que evite o assassinato dela. Ambos decidem deixar a organização e Nikki vai (dãããã) contar isso ao Dr.  Ao ser lembrado de sua dependência química e de que o Dr. é o único capaz de suprir seu vício, Nikki parte, em conflito consigo, retornando para Mary apenas para encontrá-la morta. A perda e o fato de não saber se ele cometeu tal ato, leva Nikki à loucura, fazendo-o correr pelas ruas da cidade gritando por Mary, até ser contido pela polícia. Uma arma é encontrada consigo e ele é preso sob suspeita da morte de Mary e dos outros crimes que cometera a comando do Dr. Sofrendo de súbita perda de memória, ele é internado um hospital, onde retornamos ao inicio da história.

Michael Jackson – Thriller

Michael Jackson poderia ter antecipado Moonwalker fazendo um filme inteiro baseado em seu hit Thriller, cujo álbum de mesmo nome ainda é o mais vendido de todos os tempos. O clip de Thriller é tão genial que te faz pensar se a canção teria o mesmo sucesso sem ele. Na verdade é quase impossível desassociar um do outro. O vídeo-clip conta ainda com uma trinca de ouro em sua produção, o diretor John Landis, Rick Baker, vencedor sete vezes do Oscar de melhor maquiagem e o eterno Vincent Price, que colabora com a narração em off e sua horripilante gargalhada. Tivesse aproveitado o sucesso do álbum e tido a sagacidade de fazer um longa baseado no vídeo-clip na época, tal filme poderia ter arrasado nas bilheterias.

Alice Cooper – Welcome to My Nightmare

Thriller não foi a primeira empreitada de Price na indústria fonográfica. Em 1975 o ator havia colaborado com Alice Cooper em seu álbum conceitual Welcome to My Nightmare – seu primeiro trabalho solo – com a introdução para a canção Black Widow. Embora o álbum tenha se tornado um filme (e especial para a TV com a participação do próprio Price), ele encaixa nos moldes de The Wall de Alan Parker, por exemplo, ao invés de uma trama pontuada pelas músicas, como The Rocky Horror Picture Show e musicais de forma geral.

De qualquer forma, se Welcome to My Nightmare viesse a se tornar, por exemplo, um genuíno filme de terror e não um musical, com certeza seria um dos filmes mais doentios de todos os tempos, ao descrever todas as bizarrices que se passam nos pesadelos de Steven, o personagem criado por Cooper, e que aparece em outros álbuns.

Metallica – Enter Sandman

Pode parecer forçação, mas convenhamos: dos mais simples, como afogamento ou caindo de um precipício, aos mais complexos com toda uma história de medonha por trás, o pesadelo é o verdadeiro terror ao nosso alcance, que pode acontecer com qualquer um, a qualquer noite. E ao contrário do personagem doentio de Alice Cooper, Enter Sandman do Metallica parece ser mais assustadora, por tratar de um indivíduo comum, com quem possamos nos identificar, tornando o terror mais palpável.

Nesse contexto, e como a letra é vaga, com suas referências às drogas, poderia-se fazer um terror/FC embarcando na ideia de “Três Estigmas de Palmer Eldritch” do tio Phil, onde neste caso, uma droga alucinatória alteraria a percepção dos pesadelos e teria uma entidade comum a todos, um sandman/Eldritch, fazendo que estes pesadelos interfiram diretamente na vida das pessoas que a usarem.

Judas Priest – Island of Domination

Um dos grandes baratos de letras de músicas é o fato de que são abertas a interpretação. Island of Domination do albúm Sad Wings of Destiny do Judas Priest, de forma literal, conta a história de pessoas sendo atacadas por criaturas – que talvez nem sejam criaturas exatamente – e que são levadas para essa ilha. Analisando a letra com cuidado, pode-se perceber uma camada extra, criando uma dubiedade onde pode-se tratar de delírios de uma mente lunática.

“There’s a man with a needle who’s pleading to get at my face” e “This is no illusion confessing confusion you’re freed/Lashings of strappings with beatings competing to win” podem falar de um médico procurando tranquilizar o sujeito e em seguida, fugindo ainda com a camisa-de-força, chicoteando a si próprio com suas longas mangas.

Tramas similares já foram vistas várias vezes em filmes e seriados, mas o conteúdo fantástico da letra (onde há até possíveis criaturas denominadas como Sky Rider, Night Rider, Spine Snapper e Throat Chocker) se aproxima do recente Sucker Punch de Zack Snyder.

Uriah Heep – The Magician’s Birthday

Uma das minhas bandas preferidas não poderia ficar de fora dessa lista. Uriah Heep exala contexto literário em suas canções – a começar pelo próprio nome da banda, que vem do personagem de mesmo nome em David Copperfield, de Charles Dickens. The Magician’s Birthday por sua vez, já é vagamente baseada em um conto de Ken Hensley, principal compositor das canções da banda nos anos 70.

A música narra o evento do aniversário de um mágico, onde várias pessoas comparecem “em uma floresta não muito distante”. Aparentemente, trata-se de uma armadilha e o mágico safado decide espalhar o terror na galera. Eis que que entra em ação o herói para salvar o dia, o qual creio ser o Rei citado no inicio da canção. Mágico e Rei travam um confronto e o monarca de nobre coração leva a melhor e tudo volta ao normal.

The Magician’s Birthday também traz uma bacana versão da canção “Happy Birthday to You” embalada ao som de um kazoo.

Menção Honrosa – Gwar

A primeira vez que me dei conta desta banda foi jogando um jogo do Beavis and Butt-Head, nos idos de 1990. Há um clip da banda, neste jogo, fazendo uma performance ao vivo, aparentemente… fornicando no palco. Mas isso é outra história.

Como os membros do Kiss, os músicos do Gwar incorporam personagens, mas em um nível muito mais intrincado que os do Kiss. Vestindo fantasias bem elaboradas, os membros da banda incorporam os personagens Oderus Urungus, Balzac the Jaws of Death, Jismak Da Gusha, Beefcake the Mighty e Flatus Maximus – entre outros que não integram mais a banda – cada um com suas próprias histórias e origens e há até mesmo um Gwar Mythos.

A banda possuí uma extensa videografia, trasheira da boa, Troma style. E no espirito desse post, a banda veio lançar vários filmes baseado em seu material. A dica aqui fica para Phallus in Wonderland de 1992.  Na “trama”, após ter seu Cuttlefish of Cthullhu (que usa como falo) roubado pelo Esquadrão da Moralidade, Oderus Urungus leva o Gwar em conflito com o Esquadrão. Apesar de deixar um gostinho de que poderia ter ido além em termos de qualidade, Phallus… é diversão garantida para os apreciadores da banda e deste tipo de humor.

Passagem do filme:

The Morality Squad videoclip:

Na verdade, este post poderia se estender infinitamente se eu fosse colocar aqui todas canções ou álbuns que poderiam derivar uma obra de ficção científica, horror ou fantástica. Então, a vontade, leitor, de deixar sua canção/álbum de preferência nos comentários.

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