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Com o pouso da sonda Curiosity em Marte ano passado, os mistérios do planeta vermelho podem estar com os dias contados. Palco de inúmeras obras de FC por mais de cem anos, Marte sempre mexeu com o imaginário, não só dos autores do gênero, mas também com as pessoas em geral e com o sucesso da Curiosity, uma missão tripulada para lá ganha mais e mais força.

E missões tripuladas a Marte, calcadas na realidade da melhor forma possível, estiveram em alta no início dos anos 2000. Só naquele ano tivemos, “Planeta Vermelho” e “Missão: Marte” e no ano seguinte “Fantasmas de Marte” e “Stranded – Náufragos”. Todos de gosto bem duvidoso, no entanto, é sobre o último que falarei aqui. E por se tratar de uma análise, e não apenas uma crítica, aviso que spoilers comerão soltos.

Uma produção espanhola, Stranded narra a história da primeira missão tripulada ao planeta Marte – com uma tripulação internacional composta de duas mulheres e cinco homens – a queda da espaçonave e consequente busca por sobrevivência da tripulação.

Confesso que só fui descobrir a trama assistindo ao filme, afinal o catei na locadora só pela capa e título. Dei uma olhadinha de leve no verso, onde, pelo elenco, ficava óbvio que era uma produção européia e pelo fato de ser relativamente obscuro, decidi que era o suficiente pra mim. Chego em casa tão excitado para assisti-lo que só o vejo cinco dias depois.

Falta de tempo…

Da esquerda para da direita: Roy Batty, Maria, Jesus, Sherlock Holmes e uma tchuquinha sem talento…

O filme começa com uma transmissão na TV em contato com a espaçonave instantes antes de adentrar a atmosfera marciana. Esse começo já é um grande banho de água fria na cabeça do cidadão. O filme mal-mal avança cinco minutos na projeção e já te deixa desconfortável com a forma que a abertura é desenvolvida. Desde a falta de capacidade de atuação do âncora, mais uma musiquinha de fundo irritante que não deveria estar ali, mais a comunicação imediata entre piloto e âncora, separados por milhões de quilômetros, mais a forma crua com que o diálogo entre os dois ocorre até a forma brochante com que tal façanha – o homem em Marte – é tratada pela TV. Cheguei a ter o controle remoto na mão com o dedo no stop…

Sem muita firula, o comandante Vishniac desatraca a nave do módulo orbital e parte rumo ao planeta vermelho, mas algo durante o pouso dá errado e a espaçonave espatifa no deserto marciano. Vishniac morre no impacto (Vishniac é o nome de uma cratera em Marte, nomeada em homenagem a um microbiologista que morrera em uma expedição na Antártica), e quando o resto da tripulação começa a abrir a boca, você se pergunta por que o mesmo não aconteceu a eles. Afinal, se percebe que a canastrice não era exclusividade do âncora. Tirando Maria de Medeiros e Vincent Gallo, o resto do elenco é um horror. Até o decente Joaquim de Almeida parece afetado pela falta de talento de parte de seus colegas. E Medeiros e Gallo se não matam o filme de vez, também não o salvam, afinal a química e dinâmica entre todos eles é embaraçosa. Sagan (outra homenagem, essa mais óbvia e que também lembra o Roy Batty de Blade Runner), interpretado por Danel Asner, me deu agonia pela forma com que aborda o personagem. Deveriam ter aproveitado a aparência do sujeito e tê-lo feito interpretar um robô. Mas o Framboesa de pior atriz iria para Maria Lidón, e olha que estou sendo generoso. Maria interpreta Sanchéz, que se torna a comandante da espaçonave encalhada após a morte Vishniac. Seu talento para atuar é proporcional a sua beleza. Eu me perguntei como que ela conseguiu o papel de protagonista, e quando descobri que – Tchan! – ela é também a diretora, me surpreendi por isso não ter me passado pela cabeça. Para ser honesto, tive a impressão de que Lidón, Asner e Sancho (Vishniac), todos espanhóis, tiveram suas falas dubladas – talvez pelo forte sotaque – , o que pode (ou não) ter comprometido o resultado final de suas interpretações. Medeiros e Almeida usam suas próprias vozes – nota-se o sotaque, sem comprometer – enquanto Gallo é americano. Uma curiosidade no elenco é a ligeira presença de John Cummings, também conhecido como Johnny Ramone. Isso mesmo, o falecido guitarrista dos Ramones, em sua única participação cinematográfica como ator.

Na verdade, tirando o começo tosco, todo o problema de Stranded reside no elenco. Não fosse por isso, o filme seria bem melhor. Exato, ele ainda consegue sobreviver apesar de seu elenco irregular. A produção é muito bem feita, e as paisagens marcianas, gravadas nas Ilhas Canárias, são belíssimas. Coincidência ou não, o filme melhora assim que os atores desistem de testar suas habilidades de interação, após discutirem sobre como sobreviverem à situação e, após concluírem que apenas dois poderiam sobreviver até um possível resgate chegar, em cerca de dois anos e meio, três deles se auto-sacrificam partindo em uma caminhada suicida pelo solo marciano.

Isso mesmo, depois do início “Big Brother Marte”, Gallo convence seus companheiros de tripulação a irem curtir a paisagem rubra de marte, enquanto ficaria lá esperando o resgate com Maria (safadenho – e sim, ele tenta tirar uma com Maria, mas quem vai dá pra um cara chato pra cacete que nem aquele?). “Liderados” por Lidón – na moral, não sabia se ficava puto ou ria da personagem dela – o resto da galera resolve ir fazer um tour no Vale Marines, mas como o personagem de Asno Asner falava pra caramba, ele acaba torrando seu estoque de oxigênio e bate as botas. Uma das formas mais picas que já vi de um personagem morrer em um filme.

O intuito da jornada era de investigar algo que parecia ser uma estrutura artificial captada pelo radar da espaçonave quando em órbita. Lidón e Almeida chegam até tal estrutura e lá descobrem que, dentro dela, existe uma espécie de rede de tuneis decorada com runas ou hieroglifos nas paredes. Conforme adentram mais na estrutura descobrem corpos alienígenas e que há áreas onde há oxigênio e a pressão atmosférica é como a da Terra. E é engraçado como dá pra notar que os capacetes dos astronautas nunca ficam completamente fechados – fail.

Parecem ter feito a melhor decisão ao abandonar a espaçonave encalhada, pois Gallo e Maria descobrem que há um vazamento irreversível de oxigênio e piram o cabeção – principalmente Gallo, se é que me entendem.

De volta á estrutura alienígena, Almeida descobre da pior maneira que o oxigênio e a pressão atmosférica são mantidas de alguma forma artificialmente, ao entrar em um corredor com a atmosfera normal de Marte. Lidón tenta salvá-lo mas é tarde. Ela consegue finalmente entrar em contato com Gallo e Maria após varias tentativas frustradas e os deixa por dentro de sua descoberta.

Gallo e Maria se vestem e vão até o local e encontram Lidón do lado de fora, sem capacete, a beira de um pequeno lago, onde há até uma plantinha. E o filme acaba. Vejam só… O cara chato pra carái, zé ruela, acaba sozinho com duas tchucas numa terra de ninguém! Claro que é óbvio o que iria rolar a partir dali.

Stranded, apesar das falhas já mencionadas, deixa a impressão de que poderia ter se salvado da onda ruim de filmes marcianos do início do século. Ele possui aquele charme que poucos filmes ruins tem. O quase. E isso da pano pra muita manga.

E se você, que já assistiu, não pegou a sacada do filme, deixo a explanação com nosso querido Giorgio Tsoukalos.

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